Segunda-feira, Julho 27

cansado

foto: roubei, daí. e daqui.

estava cheio daquela coletiva, das palavras, do ar viciado daquela sala. jornalista que é jornalista – já dizia seu avô – fica apenas meio quieto, pois o silêncio é a metade pergunta boa. ele lembrou-se da esposa que ia embora, das contas que nunca iam embora, da parcela vencida de quase tudo, do estacionamento longe dali, da guarda do filho, do jornal que não lera naquela manhã, do seu perfil desatualizado no orkut – merda! – e da fome no mundo. e ainda das correntes de oração power point blaster fucking, do prazo para entregar a fucking matéria para o fucker editor, dos fucking dez mil caracteres. e a pauta era o fucking crescimento do exame de próstata. trocadilhos prováveis.

depois de um tempo sem pensar, levantou-se lentamente no meio da coletiva. o assessor do médico acenou para o jornalista. poderia, enfim, falar. mas apenas esticou os braços e começou a dançar a Macarena. e cantava “quem já botou pra rachar aprendeu que é do outro lado do lado de lá do lado que é lá do lado de lá”.

endoidou, o cotado.
que inveja.

PlayStation:
acordei cantando Caetano
e quis dividir com alguém.
azar o seu.

Sexta-feira, Julho 24

do que eu tenho lido

de Helio Schartsman, no Folha do Online
“Talvez devamos eliminar os intermediários e extrair a Verdade diretamente nos livros sagrados. Bem, o Deuteronômio 13:7-11 nos manda assassinar qualquer parente que adore outro deus que não Iahweh; já 2 Reis 2:23-24 ensina que a punição justa a quem zomba de carecas é a morte.”

de George Orwell, no A Revolução dos Bichos
“O Homem é nosso verdadeiro e único inimigo.”

de Vinicius, em Soneto do Amor Eterno
“E assim quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angustia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

do blog cleycianne.blogspot.com
“Todo mundo sabe que o sabor do órgão sexual masculino não é muito bom, eu já fiz quando era do mundo, por isso eu sei! Mesmo se você tiver curiosidade, não experimente!! Se você for casada e seu marido insistir, ore para que ele mude de idéia! Não seja comandada pelo diabo!”

[este último foi apenas para indicar este sensacional blog, que aparentemente é fake, mas reproduz muito bem os pensamentos arcaicos de nossas vizinhas, familiares ou daquele barbudo que fica gritando no microfone, dentro de uma garagem, para uma multidão de sete pessoas com as mãos levantadas.]

Quinta-feira, Julho 23

cavalo suspenso

para fazer a imagem acima:

1. chame um amigo tão desocupado quanto você, de preferência, um que venha de Fortaleza para São Paulo e, na véspera do Dia do Chocolate, queira reproduzir um vídeo doido que passou na MTV.

2. pegue um celular.

3. apague a luz do apartamento.

4. deixei o amigo desenhar no ar enquanto você superexpõe a câmera.

5. coloque no seu blog.

Terça-feira, Julho 14

fluxo

alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.
na foto, phelipe esteves no Parque da Água Branca. São Paulo, 12.jul.2009


da série "garçom, aqui nesta mesa de bar"


acordou pensamento em um monte de coisa tonta. tinha tempo, o relógio biológico despertara uma hora antes do tecnológico. ficou mais alguns minutos na cama e depois, como alguém que aperta Ctrl+Alt+Del, saiu da cama. era o mundo que nascia cansado naquela manhã fria de inverno paulistano. fez café, depois tomou, depois queimou a língua e depois disse “Bosta”, necessariamente nesta ordem.

na rua, a caminho do ônibus, a única coisa que a cidade dizia era “Mantenha o fluxo”. só assim as pessoas são mais ou menos felizes, no fluxo, na agitação. depois, quando tudo para em frente ao semáforo, em frente ao outro carro, vem a violência desumana. parar o fluxo é um abuso. o intrânsito paulistano é fluxo interrompendo o fluxo.

tal qual o suicídio, que é a decisão interrompendo a decisão. ele sorriu da própria esperteza. lembrou do Arnaldo Antunes declamando o Eça de Queiroz naquela música da Marisa Monte: “sentia um acréscimo de estima por si mesma e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante”. depois entrou no ônibus, de volta à realidade.

a cidade escorria rápida lá fora, meio frio, meio sol, meio tudo indo na mesma. era o fluxo estúpido da vida. era o táxi, os motoristas cansados de viver, as frases malditas de cada manhã pesada, o relatório de ações semanais. viu o tiozinho da C-E-T, o senhor do fluxo. tudo nele muito grande: a barba, a bota, a bunda, o beiço. riu admirado da grandeza alheia. como são felizes os que não param! e chegou, depois disso, ao seu ponto. pensou em não descer, em não encarar São Paulo naquele dia, nem a vida, nem o mundo.

mas desceu. a ideia de desistência o fez lembrar da conversa com o amigo que disse que tudo aquilo era caixa de Pandora. e todas as caixas precisam ser abertas. aquela vez em que tomou absinto demais e pensou em violentar o mundo inteiro era caixa de pandora. uma Pandora que diz "Meu caro, você gosta de violentar, assuma". a balada, os outros, a própria mão. ah, se ele tivesse um revólver! ou um pouco de veneno de escorpião. isso, era um escorpião! sestava no meio da roda de fogo e precisa injetar o próprio líquido na própria cabeça. fugir. escorrer. deitar um pouco depois do almoço.

pensou, ao subir a escada, em escrever estupidamente sobre tudo aquilo na terceira pessoa quando chegasse ao escritório. e fez. e leu. e gostou.

Segunda-feira, Julho 6

quem inventou o amô-uo?

este lugar eu amo, de verdade e para sempre

as pessoas amam muito facilmente. ou melhor, as pessoas dizem que amam muito facilmente. e eu acho isso bizarro. na verdade, acho engraçado. sou mais ou menos como o Charlie, de Two And a Half Men: quando uma mulher diz que o ama, ele responde: "obrigado".

rá!

costumo encarar o amor rapidamente declarado como uma imaturidade. talvez por ser uma contradição em termos. do ‘amor’ pro ódio, não se aumenta nem a quantidade de caracteres da palavra. do ‘amor’ pro ciúmes, basta apenas uma ‘loira azeda’ pra engrossar o caldo. do ‘amor’ pra posse, não falta nada, quer que emrbulhe pra presente?

gosto muito da definição bíblica [sim, eu já li a Bíblia, ok?] de amor: é fogo que arde e não se vê, ferida que dói e não se sente [ops, essa definição é do Camões, culpa do Renato Russo que misturou tudo isso em “Monte Castelo]. a Bíblia não define o amor como algo em si, mas como algo que gera atos: “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. devo confessar: também é interessante.

ou seja, fora família e uns três ou quatro amigos de verdade [que passaram comigo bons e maus momentos], não fui amado de verdade. desejado, talvez, mas amado dificilmente. idolatrado, querido, buscado e muito apreciado, ok, mas amado, não. admirado, conquistado, talvez, mas... ah, chega, eu sei fingir que sou humilde.

e, acredite, não acho que não ser amado seja ruim. pelo contrário, acho engraçado. lembro da cara de quem disse que amava e, por coisas esdrúxulas, foi embora [alguns eu quem mandei, ok]. caralho, como é que se some assim? por uma grande bosta de nada! amar é estar perto, dar manutenção - ou ao menos, notícias.

enfim, não ando descrente do amor, mas tenho separado muito bem do desejo, da admiração e da vontade de ser igual ao outro [eu tenho tudo isso junto e misturado]. assim se vive melhor e sem ilusões.

músga do dia: 'Ilusion', da Julieta Venegas com Marisa Monte.
e o blog da vez é: eudoupraidiotas.blogspot.com

Sexta-feira, Julho 3

pa-pa-pauer rruendiers


hoje estive novamente numa indústria farmacêutica para fotografar uma galera, ae. pautas de última hora. na foto acima, eu estava me preparando para entrar na 'sala dos hormônios' [de onde um homem saiu com um belo par de seios uma vez]. lá, só se entra vestido de:

a. raparida muçulmana azulada
b. power rangers força ninja
c. convidado de festa à fantasia

abaixo, já com todo o equipamento, agora vestido vestido de:

a. megazord
b. monstro de filme caseiro de terror
c. power rangers derrotado
d. astronauta com dor-de-barriga
e. plantão médico com gripe suína

Quinta-feira, Julho 2

o charme discreto da gripe suína

*

a gripe suína quase chegou aqui na empresa. a Denise até precisou ficar em casa porque a irmã dela estava na lista de suspeitos da Interpol. por sorte, não era nada de H1N1. a gente achava [eu, pelo menos] que essa história toda de gripa porcina tinha acabado, especialmente após a queda do 447 e da morte do Michael, mas parece que a coisa anda crescendo fodasticamente.

medo.

de toda esta novela [que termine logo, caralho!], acho que o capítulo mais interessante foi a escolha do nome. parece até nome de novela antiga do SBT. no início, suspeitavam-se que o vírus mutante H1N1 tinha alguma relação com porquinhos. mas agora que imagina-se que ele tenha ‘escapado’ de algum laboratório, tornou-se chato demais mudar e usar a sigla A Agá Um Êne Um. é muito grande e falta charme. parece que a gente enrola a língua pra dizer. isso, de usar sigla, é coisa de gente que não ouve Bossa Nova, não usa cachecol e não gosta de animais [pronto, falei].

sou a favor de criar uma equipe de jornalistas [diplomados, claro] no Ministério da Saúde para dar nomes para as doenças [a previsão é de nova safra para a qualquer momento]. embora seja um erro técnico, “gripe suína” é um nome fácil, que pega rápido [literalmente] e dá margem para os comediantes stand up criarem muitas piadinhas.

a gripe suína é uma das poucas coisas que funcionam neste país.

essa equipe do MS, além de ter jors e alguém da área de saúde, pode ter membros da Polícia Federal, pois eles, sim, são ótimos em dar nomes legais para ações do mal.

*na foto acima,
gato capturado por
Camila Ponte e dado
de presente, em forma de foto,
para mim. não tem nada a ver com
o assunto, mas também é charmoso