"e a montanha insiste em ficar lá parada" da série "este texto não se encaixa, nem eu"o que tem e o que não tem mais acento; a conta de luz pra pagar; o bônus; o novo horário do ônibus; jantar ou apenas comer umas besteirinhas; para onde viajar no feriado; Rio de Janeiro ou São Paulo; que roupa combinar com essas meias; a data de vencimento do cartão de crédito; o que será do velho ano novo; a minha opinião sobre a política bioenergética dos Estados Unidos; a melhor data para compra; a vida de David Gale; o motivo secreto pelo qual nunca tiro minha barba; o meu ateísmo; o novo single da Beyoncé; minha avó que não vejo desde o Natal; Avaré, Salto, Cabreúva, Itu, São Pauo, Lisboa, Botucatu; a volta da Drica para São Paulo; outro livro inacabado do Saramago; a proposta da fotografia pós-moderna; Casablanca; Flip, ExpoZebu, Agrishow, quais as minhas próximas viagens; o equilibistra, o Bauru no Ponto Chic, o suco de seriguela, o bar mexicano; o sono, As Horas e uma certeza inesgotável de que a existência é um fardo.
a existência é um grande cadáver que depositaram sobre nossa cabeça ao nascermos. ninguém, ao menos no pouco que eu me lembro daquela época, foi a uma fila e pediu “uma existência para viagem sem pepino, por favor” e algum atendente disse “mais cinquenta centavos, batata grande?”. talvez por isso é difícil hoje imaginar que exista um deus, pois se existir, ele está sentado numa cadeira de praia diante do mar. um ser assim não precisa ser crido, nem se quer imaginado.
o jeito para não se matar [de tédio, especialmente] é provocar a existência com outras formas de ver o mundo. buscar livros, filmes, comidas, passeios, conversas, danças, transas, esportes e bebidas que nos impressionem, nos mostrem que a diferença é interessante, que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. não sugiro a fuga, mas a descoberta, algo que acrescente na nossa história um pouco mais de prazer.
ou algo assim.