. da série “passeios”
quando cheguei ao CINESESC, na Augusta, já havia uma fila destas do tamanho de São Paulo. tenho problemas com multidões, se não as observo com a curiosidade de um estrangeiro, eu as enxergo com a distância de um adversário. era domingo e nós – os da multidão e eu – queríamos ver o documentário “Sobreviventes” [aliás, veja quando puder], da Miriam Chnaiderman e Reinaldo Pinheiro que está neste 10º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade.
na fila imediatamente à minha frente, uma escritora Ana Num-sei-o-que estava acompanhada de uns quinze amigos. eles falavam alto, gesticulavam, tentavam ao máximo chamar atenção dos outros coolties ali deslocados da humanidade de massa. eu, que em geral não quero interagir, inteirar ou intelectualizar surubamente, permaneci com a “Poder” de março levantada à altura da cara. essa tal Ana bateu a cabeça três vezes na revista e nas três olhou para mim como se fosse muita ousadia da minha parte existir. permaneci imóvel, lendo a maravilhosa entrevista do Vik Muniz [a exposição “Vik”, que vi no Rio, chega agora em abril ao MASP!], além de textos do Thiago Lacerda sobre Calígula e do Frei Betto, sobre Havana.
o filme propriamente dito é denso, forte e nos fez chorar involuntariamente. No final da sessão, muita gente quieta, nauseabunda e dolorida. “Sobreviventes” tirou a má impressão que fiquei da Chnaiderman de quando a conheci em Itu, durante o festival de cinema de lá. o projetor estava com algum problema [ou era o filme?] e não apreciei na época o material dela sobre o José Agrippino. aliás, me lembro de ter desgostado também do Agrippino e até comentei com amigos. eu era [mais] superficial e não sabia quem era esse cara e sua importância durante a Ditadura.
o fato é que em “Sobreviventes” ela mexeu comigo. como ela mesmo disse antes da sessão, a parte técnica é de responsabilidade maior de Reinaldo Pinheiro, mas o que mais interessa neste documentário é a parte dolorosamente humana dos entrevistados, o que talvez para ela seja mais fácil, pois também é psicanalista. entre os “personagens” se incluem torturados em ditaduras [brasileira e argentina], uma mãe que perdeu as filhas soterradas e um professor negro que sofreu diversas situações extremamente racistas.
nunca tinha ido ao É Tudo Verdade. gostei incrivelmente da proposta. acompanho a coluna do Amir Labaki no Valor e de vezemquandamente vejo documentários. mas, se pudesse dar um conselho para os organizadores [é melhor encarar como dica de quem é meramente um espectador ansioso], escreveria sobre essa punhetação dos discursos de abertura. se, por um lado, é muito revelador ver o rosto dos diretores e da equipe técnica ali, por outro, é cansativo ouvir agradecimentos, mensagens, anúncios, lágrimas e abraços. a gente [vocês] pode ir a um café depois, que tal?, com todos os beijos, abraços e parabenizações [afinal, vimos que o documentário é interessante].
na fila imediatamente à minha frente, uma escritora Ana Num-sei-o-que estava acompanhada de uns quinze amigos. eles falavam alto, gesticulavam, tentavam ao máximo chamar atenção dos outros coolties ali deslocados da humanidade de massa. eu, que em geral não quero interagir, inteirar ou intelectualizar surubamente, permaneci com a “Poder” de março levantada à altura da cara. essa tal Ana bateu a cabeça três vezes na revista e nas três olhou para mim como se fosse muita ousadia da minha parte existir. permaneci imóvel, lendo a maravilhosa entrevista do Vik Muniz [a exposição “Vik”, que vi no Rio, chega agora em abril ao MASP!], além de textos do Thiago Lacerda sobre Calígula e do Frei Betto, sobre Havana.
antes de entrar na sala, há uma exposição belíssima do Mimmo Catarinich, que acompanhou e registrou gente como Roberto Benigni, Pasolini, Almodóvar, Clint Eastwood, Fellini e outros deste naipe. Na foto, Benigni em cena de "O Monstro", um dos filmes mais engraçados que já vi.
o filme propriamente dito é denso, forte e nos fez chorar involuntariamente. No final da sessão, muita gente quieta, nauseabunda e dolorida. “Sobreviventes” tirou a má impressão que fiquei da Chnaiderman de quando a conheci em Itu, durante o festival de cinema de lá. o projetor estava com algum problema [ou era o filme?] e não apreciei na época o material dela sobre o José Agrippino. aliás, me lembro de ter desgostado também do Agrippino e até comentei com amigos. eu era [mais] superficial e não sabia quem era esse cara e sua importância durante a Ditadura.
o fato é que em “Sobreviventes” ela mexeu comigo. como ela mesmo disse antes da sessão, a parte técnica é de responsabilidade maior de Reinaldo Pinheiro, mas o que mais interessa neste documentário é a parte dolorosamente humana dos entrevistados, o que talvez para ela seja mais fácil, pois também é psicanalista. entre os “personagens” se incluem torturados em ditaduras [brasileira e argentina], uma mãe que perdeu as filhas soterradas e um professor negro que sofreu diversas situações extremamente racistas.
nunca tinha ido ao É Tudo Verdade. gostei incrivelmente da proposta. acompanho a coluna do Amir Labaki no Valor e de vezemquandamente vejo documentários. mas, se pudesse dar um conselho para os organizadores [é melhor encarar como dica de quem é meramente um espectador ansioso], escreveria sobre essa punhetação dos discursos de abertura. se, por um lado, é muito revelador ver o rosto dos diretores e da equipe técnica ali, por outro, é cansativo ouvir agradecimentos, mensagens, anúncios, lágrimas e abraços. a gente [vocês] pode ir a um café depois, que tal?, com todos os beijos, abraços e parabenizações [afinal, vimos que o documentário é interessante].
talvez essa seja mais uma percepção da minha versão chata, essa que está mais aflorada ultimamente. esse ser fonsequense que permanece com a revista levantada para não trocar um mero olhar com a humanidade e que não quer ouvir muito sobre um filme o qual ainda não assistiu.










