Segunda-feira, Março 30

eu, sobrevivente F.

sobreviver, depois de tudo, é uma arte

. da série “passeios”

quando cheguei ao CINESESC, na Augusta, já havia uma fila destas do tamanho de São Paulo. tenho problemas com multidões, se não as observo com a curiosidade de um estrangeiro, eu as enxergo com a distância de um adversário. era domingo e nós – os da multidão e eu – queríamos ver o documentário “Sobreviventes” [aliás, veja quando puder], da Miriam Chnaiderman e Reinaldo Pinheiro que está neste 10º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade.

na fila imediatamente à minha frente, uma escritora Ana Num-sei-o-que estava acompanhada de uns quinze amigos. eles falavam alto, gesticulavam, tentavam ao máximo chamar atenção dos outros coolties ali deslocados da humanidade de massa. eu, que em geral não quero interagir, inteirar ou intelectualizar surubamente, permaneci com a “Poder” de março levantada à altura da cara. essa tal Ana bateu a cabeça três vezes na revista e nas três olhou para mim como se fosse muita ousadia da minha parte existir. permaneci imóvel, lendo a maravilhosa entrevista do Vik Muniz [a exposição “Vik”, que vi no Rio, chega agora em abril ao MASP!], além de textos do Thiago Lacerda sobre Calígula e do Frei Betto, sobre Havana.

antes de entrar na sala, há uma exposição belíssima do Mimmo Catarinich, que acompanhou e registrou gente como Roberto Benigni, Pasolini, Almodóvar, Clint Eastwood, Fellini e outros deste naipe. Na foto, Benigni em cena de "O Monstro", um dos filmes mais engraçados que já vi.

o filme propriamente dito é denso, forte e nos fez chorar involuntariamente. No final da sessão, muita gente quieta, nauseabunda e dolorida. “Sobreviventes” tirou a má impressão que fiquei da Chnaiderman de quando a conheci em Itu, durante o festival de cinema de lá. o projetor estava com algum problema [ou era o filme?] e não apreciei na época o material dela sobre o José Agrippino. aliás, me lembro de ter desgostado também do Agrippino e até comentei com amigos. eu era [mais] superficial e não sabia quem era esse cara e sua importância durante a Ditadura.

o fato é que em “Sobreviventes” ela mexeu comigo. como ela mesmo disse antes da sessão, a parte técnica é de responsabilidade maior de Reinaldo Pinheiro, mas o que mais interessa neste documentário é a parte dolorosamente humana dos entrevistados, o que talvez para ela seja mais fácil, pois também é psicanalista. entre os “personagens” se incluem torturados em ditaduras [brasileira e argentina], uma mãe que perdeu as filhas soterradas e um professor negro que sofreu diversas situações extremamente racistas.

nunca tinha ido ao É Tudo Verdade. gostei incrivelmente da proposta. acompanho a coluna do Amir Labaki no Valor e de vezemquandamente vejo documentários. mas, se pudesse dar um conselho para os organizadores [é melhor encarar como dica de quem é meramente um espectador ansioso], escreveria sobre essa punhetação dos discursos de abertura. se, por um lado, é muito revelador ver o rosto dos diretores e da equipe técnica ali, por outro, é cansativo ouvir agradecimentos, mensagens, anúncios, lágrimas e abraços. a gente [vocês] pode ir a um café depois, que tal?, com todos os beijos, abraços e parabenizações [afinal, vimos que o documentário é interessante].

talvez essa seja mais uma percepção da minha versão chata, essa que está mais aflorada ultimamente. esse ser fonsequense que permanece com a revista levantada para não trocar um mero olhar com a humanidade e que não quer ouvir muito sobre um filme o qual ainda não assistiu.

Sexta-feira, Março 27

pedaços de conclusões

obra do escultor Gian Lorenzo Bernini, feita entre 1645-1652

da série "¿qué se pasa?"

uma vez, quando eu disse que o orgasmo era o único ato-sensação que me fazia suspeitar da existência divina não era apenas uma frase de efeito brega. fazia um certo sentido. há pesquisas que relacionam o tal êxtase religioso com o orgasmo sexual [vide essa escultura barroca “O Êxtase de Santa Teresa”, que, tirada do contexto cristão, é de uma estética muito sensual].

eu acho, pelo menos.

outro dia [já faz uns cinco anos], vi uma mulher no programa do Jairo Bauer defendendo que a masturbação era um dos maiores atos de amor para consigo mesmo [o conceito de “amor-próprio” é outro da lista de deturpações, assim como “elite”].

talvez os relacionamentos que tenham como base principal a atração física sejam os mais sinceros. especialmente se o desejo é visceral, sem desculpas ou ilusões. sem cobranças, expectativas irreais ou mentiras. sem disfarces ou promessas. talvez seja dessa sinceridade que nasçam outros tipos de sentimentos [ou não], que podem dar margem a relações mais duradouras [estas, não apenas baseadas na atração, claro, mas sem nunca deixá-la de lado].

Quinta-feira, Março 26

resquícios [2]

outras cenas nãometoquenses.
agora acabou.
eu acho.







Segunda-feira, Março 23

resquícios

dá pra ver quem não é de Não-Me-Toque

da série "vida fonsequense fora de São Paulo"

de volta à São Paulo, posso listar algumas coisas de que a gente realmente sente falta quando passa uma semana no Reino da Não-Me-Toquelândia:

* supermercado 24 horas [acredite, faz falta!]
* ônibus, metrô, táxi
* El Kabong e qualquer outro de comida mexicana
* Avenida Paulista
* chuva tranquila no final do dia
* barulho antes, durante e depois de dormir
* vários caminhos, opções e tipos
* programação noturna, teatro, sala Imax de cinema

por outro lado, é bom saber que existe outra forma de se viver e de escolher viver [o que é fundamental para se ter uma existência, ao menos prazerosa, pois sem escolha não há prazer]. é bom conhecer pessoas [que falam "loubiamento" e outras estranhezas], comidas [se for para Vitor Graeff, coma a tal da cuca com linguiça], danças [caia no "forró gaúcho" e perceba que todas as canções se parecem com "olha a cabeleira do zezé, será que ele é?"] e, por último, aprecie a paisagem. sempre tem alguém interessante, quando não, todo um cenário que encanta até o mais urbano dos urbanos.

Sexta-feira, Março 20

todos os dias é um vai-e-vem [ou como é bom voltar pra casa]

fotodadê

da série "vida fonsequense fora de São Paulo"
a missão em Não-Me-Toque chegou ao fim, como tudo que tem um começo chega um dia. muitas pessoas novas, fotos, histórias e risadas com Denise Melo. quem sabe, um dia desses, eu as publico. por enquanto, uma foto ou duas.


Janice Palao, jornalista

Apresentações de coral e capoeira

Quarta-feira, Março 11

vai indo que eu não vou*

da série "grandes recados colados com imã de geladeira"

aos meus dois leitores [pai? mãe?]: de hoje até dia 23 de março, toda a equipe deste blog [no caso, eu] estará em viagem pelo majestoso Rio Grande do Sul, mais especificamente numa cidade exoticamente batizada de Não-me-toque. eventuais desatualizações são esperadas, bem como ausências, silêncio, cansaço e desespero. em breve - num breve que a gente nunca consegue determinar direito - estaremos de volta com nossa programação normal [que, cá entre nós, nunca foi normal de verdade].

enquanto issso, este blog vale muito a pena: ultralafa.wordpress.com

Atenciosamente,

Felipe Fonseca

*título descaradamente roubado da coluna do José Simão, na Folha de S.Paulo. pois como dizia o poeta, "o que é bom é pra se roubar".

um dia inteiro no Rio [3]

Niana Ponte, a menina que gosta de gatos,
confundindo espécies no morro de Santa Teresa

da série “a vida fonsequense fora de São Paulo”

subseção “devoto de Santa Teresa, a mara”

eu imagino que seja impossível [ou ao menos, incoerente] subir o morro de Santa Teresa, no Rio, e não ficar devoto. não sei qual é a santa homenageada com o nome do lugar, se a do Menino Jesus [a Teresinha, também chamada de Lisieux] ou se a Teresona [a de Ávila]. Que seja.

é necessário pagar generosos R$ 0,60 para subir até lá de bonde [se você for em pé, pendurado na contramão do vento, vai de grátis]. o trajeto é tão importante quanto a chegada. no caminho [sugiro ir até o final, voltar e descer na metade] existe um monumento chamado Parque das Ruínas, donde a vista da cidade é mara. é cartãopostal [quase tudo no Rio é]. dá pra ver a ponte Rio-Niterói, o Pão-de-açúcar, o forte, os transatlânticos, o mamRio. As paredes velhas estão preservadas, mas felizmente, não foram reformadas. apenas as escadas de acesso e parapeitos são novos, o resto aparenta ser antiquíssimo, do tempo da bisavó dos nossos avós.

em Santa Teresa, “homem de chinelo” não é apenas um conceito: é traje obrigatório. quem sai de São Paulo e cai por lá percebe o quanto nós trabalhamos aqui nesta cidade doida. até nos fins de semana a gente encontra bicos, freelas, trabalho temporário. e para quê? a vida é dinheiro, por acaso? não seria melhor rezar para Santa Teresa enquanto o bonde sobe o morro? não seria mais saudável pisar no chão de vez em quando, vestir uma regata, brincar com um cachorro na rua, comprar um cristinho redentor de madeira no Morro do Flamenco? hein?

mesmo assim, dificilmente eu trocaria São Paulo por outro lugar no Brasil [o jeito é melhorar os hábitos e encontrar prazer nas pequenas coisas de segunda à sexta]. mas, se eu o fizesse, há grandes chances de ser este lugar o morro de Santa Teresa. o Rio tem essa coisa estranha de mexer comigo. eu não combino com a cidade, mas faria um esforço sem reclamar para me adaptar ao ritmo da existência carioca. ao menos por um tempo. ontem mesmo, eu dizia pra márcia rosa que o barato de morar uma temporada no Rio [ou em Buenos Aires, que seja] é voltar e depois, numa “arrogância humilde”, dizer: “quando eu morava no Rio, blábláblá”. adoro.

Terça-feira, Março 10

chicas pá comemorar

hoje, dia 10 de março, um ano de São Paulo. "efeméride efêmera", mas ainda assim, oportunidade para rever conquistas, pessoas, projetos, viagens e shows. na foto, uma das Chicas na apresentação do dia 8, na Caixa Cultural da Sé. Abaixo, uma outra.

Segunda-feira, Março 9

um dia inteiro no Rio [2]

"me escolheeeeee!"

da série “a vida fonsequense fora de São Paulo”
subseção: "companheiros de primeira viagem"

eram quase sete quando cheguei ao Rio. desta vez, eu fui, ninguém me levou [o motorista do ônibus, talvez]. e num passeio sozinho, como me devia. e podia. e queria. após conhecer a inadequada e incoerente rodoviária da cidade [como pode um lugar tão feio dentro do paraíso?], parti diretamente para o Cristo.

logo que cheguei, vi um destes grupos de idosos que viajam em excursão por todos os cantos do país. uns trouxeram netos, outros vieram com a filha da vizinha do conhecido da cunhada. e todos estavam quase tão ansiosos quanto eu para subir o bonde.

uma senhora, querendo ser fotografada em frente a uma estátua ali na Cosme Velho, orientava um menino, o coitado, que mal conseguia segurar uma máquina antiga. “mais pra lá, João. não vai cortar a cabeça da vó, hein? eu só tenho este filme. cuidado, não encoste no ônibus, vai sujar a camiseta nova que a vó te deu”. confuso e pressionado, o pobre João começou a chorar e nem fez a foto. eu poderia ser gentil e me oferecer para o serviço, mas eu estava a passeio [e também fiquei com medo dela].

já dentro do bonde, estávamos nacionais, coreanos, suecos, um casal francês e três italianos. todos muito exóticos. mas foram os brasileiros que me chamaram mais a atenção. uma outra senhora, guia do grupo, tinha organizado a excursão e, talvez por isso, se sentia na obrigação de fazer comentários sobre tudo, além de rir mais alto e anunciar as belezas do Rio. era como se a chata dissesse “olha como eu estou aqui, linda e poderosa. trouxas, me notem, me escolham, me admirem. aplausos, por favor.”

na subida do bonde por entre a mata, há placas que indicam as espécies que estão ali. essa senhora, muito solícita, ia anunciando o nome das árvores em voz alta. “amoooooora”, “caramboooola” e por aí adiante. até que chegou uma placa “bem-vindo ao parque nacional da tijuca” e ela: “bem-vindo ao parque... só consegui ler isto”. quando passamos por uma estátua de Nossa Senhora Aparecida, ela quase surtou. “gente, olha que linda! É nossa mãe! Beijinho, mãe!”. ela ia jogando beijos pra imagen. eu, respeitoso como sempre, tentava não me cagar de tanto rir. era uma mulher engraçada.

lá em frente ao Cristo, a neblina atrapalhou, mas não impediu a diversão. o mar branco de leite lembrava a descrição dos personagens no “Ensaio sobre a cegueira”. o Cristo não é de longe a parte mais interessante do Rio de Janeiro [seria Santa Teresa?], mas é uma experiência necessária. um passeio agradável e divertido. os turistas são bonitos. a vista – especialmente quando a neblina vai embora – é única. não acredito que vou escrever isto, mas tenho de concordar com esta senhora guia dos idosos: “gente, mesmo assim tudo fechado, é bem legal, vai! não reclamem, pô!”.

um dia inteiro no Rio [1]

Niana e a gata que podia voar [também chamada de Mimosa]

da série “a vida fonsequense fora de São Paulo”
subseção: "coisas deliciosas para se fazer no Rio de Janeiro"

[1] subir ao Cristo, ainda que esteja tudo nublado [ainda desconfio de que não era ele lá atrás da cortina branca, mas tudo bem]. se for com um grupo de idosos, mais divertido ainda. se tiver umas velhas malucas e narram o caminho, melhor ainda ["ali é uma amoreira, ali é uma caramboleira, ali é... vixi, aquela eu não sei"]!

[2] comer coxinha em Cosme Velho. ou ali já era Laranjeiras? foda-se. e ainda conhecer a casa onde Machado de Assis viveu. e o museu de arte Naif. e o museu de pediatria [Darwin, como no Rio tem museu!].

[3] almoçar com a família Ponte no Mangue Seco. mara!

[4] voltar ao mamRio e ver numa tacada só Vik Muniz e Evandro Teixeira. e fotografar gente dormindo na praça. e gente bonita sobrando.

[5] caminhar pela ma-ra-vi-lho-sa feira da Lapa. esqueci o nome, mas é muito boa. uma Benedito Calixto ampliada e diversificada [sim, isto existe]. ah, a Camila me lembrou: Feira do Rio Antigo.

[6] conhecer a Livraria Travessa e passar vontade de comprar tudo. eu disse tu-do! e ainda descobrir que a sua coleção completa do Calvin & Hobbes está, er, incompleta [odeio livrarias que compram obras internacionais].

[7] subir o bonde até Santa Teresa. realmente, Mastecard não funciona ali. pra saber: quem vai sentado paga o absurdo de R$ 0,60, quem vai em pé [arriscando a vida e sentido a adrenalina com o vento nos cabelos] vai de graça. não deveria ser o contrário? enfim, é coisa divina.

[8] andar por Ipanema, Lapa e adjacências.

[9] viajar de metrô e ônibus. acredite: no Rio, eles têm ar condicionado e os cariocas riem de nós, paulistas e paulistanos, que nem sabemos direito o que é isso.

[10] brincar com a Camila, a gata da Mimosa [ou era o contrário?]. eu não sabia que gatos podiam voar...

[11] conhecer aquele monumento, o Parque das Ruínas, em Santa Teresa e ver que “o Rio continua lindo”.

[12] ter a certeza que um único dia não basta, mas é suficiente para achá-lo único. outras fotos no flickr.

Sexta-feira, Março 6

a minha amiga Thavis

lá em casa, pré-preparo para os anos 80

da série “galera do bar”

e tem essa minha amiga Thavis. o nome dela, pelo que me consta, é na verdade Thais, mas já caiu em desuso, inclusive por ela. é importante, porém, ressaltar que de segunda à quinta, a Thavis propriamente dita não existe, é a Thais Ferrite que toma conta daquele corpo. essa outra, a Thais, a gente quase nunca vê. fica quieta, trabalha, estuda, faz inglês, quase se esconde do mundo. a Thavis, a gente não tem como não enxergar. Gosta e estuda cinema, bebe lindamente, tem umas tiradas, é um dos cinco seres humanos com quem consigo conversar mais profundamente e, por Darwin!, acompanha Lost assiduamente.

na meianoite de quinta para sexta, a Thavis acorda. ainda que a outra parte esteja dormindo, a Thavis desperta e fica lá, deitada, contando as horas para as 18h de sexta, que é quando ela ouve um sinal [ só ela no mundo ouve este sinal ] e sai em direção ao bar. pode estar em trabalho de parto, ela levanta, sai em direção ao oeste e senta na cadeira. depois, ainda com os olhos arregalados, ela levanta a mão e apenas diz “garçom!”.

se o resto da galera vai ter compromisso, missa, trabalhos ou hora extra, it doesn’t metter, ela estará lá com suas amigas cervejas geladas. quem quiser que puxe uma cadeira e um papo qualquer, o cenário está montado. o final de semana está só começando.

mas que seja pinguça, cachaceira ou tequiladeira. pelo contrário, essa mulher nunca fica bêbada [ beber é um conceito diferente de embebedar-se]. a Thavis bebe pelo simples prazer de fazê-lo. conta a lenda que nos tempos de Bauru, certa vez um missionária estadunidense passou perto do bar numa sexta-feira após às 18h e viu a thavis beber divinamente. quando a religiosa voltou para os Estados Unidos, começou a cantar por aí e adotou o codinome de – não sei vocês já ouviram falar – Amy Winehouse.

conversas políticas

da série “Ataques à beira de uma mulher em nervos”

“Esse Sarney nunca envelhece, né, amor?”
“Este aí não o Sarney! É o ACM. Por que você está vendo reprise da TV Senado?”
“Num ta vendo direito, né? É o Sarney. E eu acho que é ao vivo.”
“O ACM já morreu, meu bem. É reprise.”
“Haha. Morreu nada, amor. Quem morreu foi o outro, aquele ator da novela.”
“Imagina, vai até passar a novela dele de novo na Globo! Do ACM cassaram o mandado dias desses, que eu vi.”
“É mandato. E cassaram o Jackson Lago, governador do Maranhão. Daí que assumiu a Roseana.”
“A mulher do Collor?”
“Não. Você está confundindo a Roseana Sarney, filha do Sarney, com a Roseane Collor, ex-mulher do Collor. Os dois foram presidentes da República e hoje são senadores. O Sarney é até presidente.”
“Não era o Lula?”
“Ainda é o Lula. Eu dizia que o Sarney é presidente do Senado.”
“Este aí nunca envelhece, né, benzinho?”
“Não, amor, ele não envelhece. Agora desliga essa tevê, amanhã a gente tem um dia cheio.”
“É, nem acredito que vamos almoçar com a mamãe! Ela sempre fala que você não aparece na casa dela desde que o papai morreu. Sabe, ela fica chateada com essas coisas.”
“A sua mãe é que nem o Sarney.”
“Ela não envelhece, né?”
“Não, ela também não larga o osso.”

Quinta-feira, Março 5

novas oportunidades de trabalho


da série “novas ideias entre velhos ideais”

você também se incomoda com a intensa segmentação do mundo? tipo, as revistas. nas bancas, há revistas de tudo quanto é tipo e público: sobre cavalos dessa raça, sobre receitas de doces caseiros [ uma contradição em termos, pois receita de doce caseiro só deve ser transmitida oralmente, de pais para filhos ], sobre pesca, sobre onze mil nomes de bebês.

[caralho!]

ou, então, as feiras. este é definitivamente o país das feiras. não aquelas deliciosas onde a gente come pastel na barraca de um japonês, mas feira no sentido de exposição. é feira de cavalo, feira do aço, de dejetos, exposição de artesanato, livro, cachorro, gestantes, fotografia, nordeste [ realizada no sudeste ] e por aí vai.

por isso sugiro novas frentes de trabalho. novos mercados que incrivelmente ainda não foram explorados. me contratem para a assessoria, por favor. uma é a I edição da feira do sete. com o objetivo de revitalizar as negociações entre os empresários do mundo do sete e dos outros números. o público-alvo inclui marcas como 775 e o spa 7 voltas. durante o congresso que será realizado no meio da exposição, o autor da novela “7 pecados” vai abordar uma rodada de discussões sobre os dias da semana e os anões da Branca de Neve.

outra sugestão. V edição do encontro de homens e mulheres do Brasil. seria uma feira qualquer, sem tema aparente e já ia começar na quinta edição pra dar um ar de “oh, tem tradição e é uma fórmula consagrada”. vai lotar. público-alvo: homens e mulheres.

mais uma. salão internacional do automóvel. uma reunião das principais montadoras que poderiam mostrar a tendência do mercado global de carros, incluindo modelos-conceitos que indicariam como o... já tem?! como assim?! tudo bem, próxima ideia.

congresso internacional das pessoas depressivas. essa ia alucinar, tenho certeza. sugiro até uma programação. no primeiro dia, a gente [ sim, eu quero entrar para esse staff ] exibe “As horas”, do Stephen Daldry; depois lê os poemas mais tristes de “Feito eu”, da Elisa Nazarian; e o dia se encerra com um show da Björk. segundo dia: leitura de “Na natureza selvagem” e análise de perfil de cinco suicidas bem sucedidos da história.

pra encerrar o assunto, a 999ª exibição pública do filme “a lagoa azul”, com presença confirmada do tio de um rapaz que conheceu a ex-vizinha da Brooke Shields. impressionante! podemos alugar o Anhembi, aqui em São Paulo, vai juntar uma galera quase incontável. a gente cobra entrada e vende ingresso pra milionésima exibição, que pode ser realizada na semana seguinte, sem problemas. não precisa nem contratar um daqueles telões, eu tenho um lençol branco para o qual a gente aponta um retroprojetor e eu levo umas caixinhas de som do meu PC. vai ser ótimo, não vejo a hora.

Terça-feira, Março 3

perigosos amores minúsculos [ ou “ao vivo direto do estranho mundo dos que ardem” ]


da série “Senta aqui e sinta o peso leve da minha mão”

saia daqui, não xerete mais o meu espaço
e pare de perguntar sobre as paredes da minha existência
o que gosto
que eu vejo
se eu faço

estas fotos todas que eu grudei na parede
são cadáveres falantes que me acompanham desde sempre
estão comigo vivos e mortos
não me deixam, dependem do meu abraço

mas essa minha insanidade perto de você
desrespeita as crianças na sala
eu não deveria ficar pendurado na sacada
a espera do vento
da queda
da coragem que é fraqueza

levante-se da minha poltrona!
caralho!
ainda não posso mostrar ao mundo
tudo aquilo que vomitei
juntar tudo,
juro por Darwin, não sei
finjo melhor que não é agora

levanta, gripa longe daqui
para se aparecer assim, feito saci
de se jogar do décimo segundo para dentro de mim

e pare de fuçar nos meus cadernos.
neles eu escondi pedaços de gente que comi,
os que só cozinhei
e aqueles poucos que apenas amordacei.
pare de folhear meus poemas sem rima,
minha letra de menina,
o dinheiro sujo jogado pelo carro na esquina

eu sou gente defeituosa
caí do berço, do muro, do cavalo muitas vezes
você pode não gostar do fantasma sob a máscara

solta o meu braço, eu quero dormir
não posso gostar de você hoje, assim, de tanto em tanto
isso não combina com o que há em mim
“eu gosto dos que têm fome e morrem de vontade”

dos que fazem do “seu almoço, meu pescoço”

não me pergunte se estou gostando
“pague meu dinheiro, vista sua roupa”
não quero suas perguntas
não vou esconder de você minhas respostas óbvias
se me provocar, vai encontrar o que não procura

aperta, mas não assopra
tenho encaixes demais para continuar assim
vem, deita, mas não aumente minha vontade
me proteja de você

ou então vai embora
agora rebola lá fora

não, eu não quero ver se dá pé
sei que mais pro fundo eu vou me afogar
se eu ganhar, perder
se eu perder, sofrer
e se sofrer,
não quero mais, obrigado,
a existência é um fardo

melhor nem te ser ter valer ver
apenas usar amar beijar entrar voltar

melhor
sem me entregar como queria
sem parecer que eu queria
fingir que nem te via
jura que você estava na minha?

vou pelas beiradas quietas e sinceras no limite do meu lençol
ou caio de vez no gosto do teu anzol
chega de bobeiras, deita mais pra lá, senão te abraço
e a gente começa a segunda
o domingo
a vida no meu regaço

Segunda-feira, Março 2

Indicaçãozinha (-çõezinhas)

Foto: João Francisco Mariano

Em geral, me interessam mais as fotografias que têm referências humanas. Mas esse João Francisco Mariano - que além de fotógrafo é arquiteto e designer - me surpreendeu em algumas imagens desertas. "Tem que olhar oara ver". Um bom achado de numa tarde preguiçosa no Portal no SESC, às vezes, um olhar quase matemático. Outras coisas do JFM aqui, ó.

Ainda no portal do SESC, é possível encontrar documentos e páginas .PDF que reproduzem conferências, seminários e entrevistas com Moacyr Scliar, Pierre Lévy, Roberto DaMatta, Rubem Alves, Maria Rita Kehl e outros.

E por falar em SESC, na Av. Paulista está em cartaz o material do livro "Fotografias de Palco", da Lenise Pinheiro (o livro acabou de ser premiado pela Cooperativa Paulista de Teatro). A exposição vai até 29.mar (terças a sextas, das 13h às 21h; sábados e domingos, das 11h às 19h). Para quem não ligou o nome à pessoa, a Lenise escreve o blog Cacilda, da Folha, com o Nelson de Sá.

Uma última coisa: fotografar teatro é mara.

E como diria meu avô, nossa, quantos hiperlinks.

Oração do daltônico

foto: gettyimages

Deus nosso que estais no céu, diga se o paraíso é muito colorido.
Enquanto isso, não nos deixe cair em coloração,
saciai com creme aqueles que querem cru e salmão
e afastai-nos de outras cores de esmalte e tintas de parede.

Quebrai, ó meu deus, as pernas daqueles que inventam cores e tonalidades,
que não se contentam com a simplicidade do arco-íris.
Parabéns, ó my lord, por ter criado o preto e o branco.

Iluminai o meu caminho, eu vos peço a vós,
mas com uma luz branca, sem tons amarelados e/ou esverdeados.
E perdoai-me pelas vezes em que falei palavrão para as cores
fúcsia, hortelã, ameixa, gelo, terracota, pastel, diamante, açafrão,
branco antigo, coral, ocre e verde Paris.

Amém.