Sexta-feira, Fevereiro 27

Invejas declaradamente explícitas que moldam a minha vida há um tempo

Da série "Novos links"

[ a ] se eu não me fosse
e pudesse escolher outra forma de ser,
gostaria de ser gabriel bá ou fábio moon.
10paezinhos.blog.uol.com.br

[ b ] além da presença na MTV,
felipe solari tem boas ideias
e um interesse especial por cinema.
felipesolari.blogger.com.br

[ c ] o CQC, meu programa mais preferido do mundo,
volta ao ar, ao vivo, inédito na segunda, dia 2.
enquanto isso, o blog do rafael cortez,
um dos melhores repórteres, me satisfez bem.
rafael.cortez.zip.net

[ d ] e o blog da simonetta persichetti
que escreve sobre fotografia para o estadão.
e para o próprio blog, claro. dica do gUi mohallem.
tramafotografica.wordpress.com

[ e] demorou, mas santiago nazarian
voltou a fazer parte da minha rotina de leituras.
agora, porém, contudo e todavia, pela internet.
graças a darwin, vem livro novo neste ano.
santiagonazarian.blogspot.com

Balanço dos últimos ciclos

Da série “Das coisas que trago no peito e na cabeça”

A vida é feito de uma série de ciclos. Digam-se-me o que quiser, mas eu acredito piamente nisso. Alguns chamam de fases, temporadas, marés ou etapas. Eu prefiro chamar de ciclo. Me parece mais coerente. Um ciclo precisa de um fim para completar sua existência e permitir que outras coisas aconteçam, outras pessoas apareçam e outros sentimentos floresçam (sobre a mesa, meu diploma da Escola de Rimas Luís Vaz de Camões).

Nesta semana, o “não” que levei da USP me soou muito mais com um “agora, não, volte mais tarde, agradecemos a preferência” do que um “eternamente não”. Já dizia meu bom e velho avô (ele não dizia nada disso, mas eu sempre quis usar esta frase): quem entra na briga, só pode entrar para ganhar, mas precisa saber que alguém precisa perder.

Há tempo que eu não aceito ciclos mal fechados. Questões mal resolvidas broxam (para não dizer que enojam). Ultimamente, ando como quem colocou uma plaqueta no peito “Só aceitamos pessoas bem resolvidas” (talvez esta seja uma boa frase para a série Tatuagens Mais Estranhas do Século).

Enfim (ou Em fim, como preferir). Dormi falando e acordei pensando que todo fim é um começo e todo início só pode/deveria acontecer após o fechamento de ciclos. É um autorrespeito. A maioria das pessoas não consegue fechar seus ciclos (de menstruação, inclusive) porque nem se quer conseguiu abri-los de verdade. Antes, é necessário segurar a Caixa de Pandora e dizer o seu próprio “abra-te Césamo”. É necessário provocar a própria existência (e o pensamento é a essência da nossa existência).

Conheço gente que abriria uma grande Caixa de Pandora ao voltar a falar com os pais, ao ver “Milk – A voz da igualdade” ou “Na natureza selvagem”, ao visitar a escola onde passou o primário, ao abrir o resultado do exame de DNA, ao se assumir como “feia, feliz e mal comida”, ao perder o emprego, ao voltar para o Brasil, ao ler/ver “Ensaio sobre a cegueira”, ao comer pudim de pão, ao ser beliscado por uma freira, ao ser atingido por um piano de cauda, ao ler “Como que chama o nome disso – Antologia” (do Arnaldo Antunes) ou “Feito eu” (da Elisa Nazarian). Gente que abriria muitas Caixas ao se olhar no espelho-que-não-é-Narciso (embora eu ache isso impossível), ao perder o posto, a pose, a hora e a vez. Pessoas que iam quase pirar ao pensarem na lógica do suicídio, das teorias de Darwin e do sexo animal ou na ilógica da existência humana, do preconceito e dos sentimentos amorosos.

Denise Mello diria “eita post grande!”, mas ela não chegou até este parágrafo. Talvez tenha se perdido na sua própria Caixa de Pandora ao questionar a maravilhosa vida desgraçada dos jornalistas ou, quem sabe, ao rever seus conceitos prévios sobre o Homem Pelado na Bienal 2008.

Esse fuck invejoso do filme "Milk" me lembrou uma série de gente frustrada
que não tem coragem de se olhar no espelho e se amar de verdade

Quinta-feira, Fevereiro 26

Engano

Da série “¿Qué se pasa?”

“Alô, é do Ben?”
“Não, senhor. É da casa do Felipe.”
“Eu queria falar com o Ben, por favor?”
“Acho que o senhor ligou errado. Não tem ninguém com esse nome aqui.”
“O Ben, caralho. Chama o Ben pra mim, é urgente.”
“Eu não conheço nenhum Ben Caralho nem Ben Pramim.”
“Você que é o Ben?”
“Depende. O Ben de Lost? Pode ser, adoro o personagem.”
“Não, rapaz. O Ben marido da Katiuska, filho da Dona Greice.”
“Senhor, sinto em lhe informar mas... o Ben morreu!”
“Oi?”
“Isso mesmo. Coitado. Tava velho já, né? A Dona Katiuska está inconformada, pobrezinha.”
“Mas eu falei com ele ontem pelo celular!”
“Então, rapaz, foi com você que ele tava falando quando passou perto de um posto de gasolina e, bein!, explodiu.”
“Explodiu?”
“O senhor não viu na televisão? Passou até o Fantástico, coisa bonita aquele monte de pedacinho de Ben pegando fogo. Uma loucura.”
“...”
“Alô! Alô! É brincadeira, o Ben tá aqui, quer falar com ele? Alô!”

Quinta-feira, Fevereiro 19

Com vocês, carne versus vegetarianos

Nemo, eu não vou te almoçar!

Da série "¿Qué se pasa?"

Mais uma vez, participei de uma conversa em torno das vantagens em ser carnívoro ou vegetariano. De um lado, os apaixonados pelo verde (não o Palmeiras, que até o fechamento desta edição não se pronunciou sobre o assunto) que veem a carne como a vilã dos problemas do universo e do outro, os carnívoros que acham que o vegetarianismo é coisa bem de quem não tem o que fazer.

Eu, que sou carnívoro desde o nascimento (e pelo jeito, o serei até morrer), peço apenas uma coisa: quem opta por ser dos vegetais, peloamordedeus, o faça por questões de saúde. Eu imagino que, embora a carne seja altamente necessária ao organismo, viva-se melhor controlando os alimentos, fazendo contas de carboidratos, aminoácidos e açucares. Deve ser um saco, claro, mas deve fazer bem para o corpo.

Não concordo com discursos de vegetarianos que dizem salvar diversos animais com essa prática. Basta acompanhar o abate dentro de um frigorífico para ver que hoje se pratica algo chamado de “abate humanitário”. O boi, o porco, o frango, o coelho, o ornitorrinco... enfim, todos eles nem sabem porque morreram. É uma espécie de “vai-ser-já-foi”.

Só chegamos até aqui porque nossa espécie é carnívora e devorou amiguinhos ao longo da evolução. "Oi, eu sou o homem e vim te comer." Soubemos pegar em armas e depois inventar a fogueira para assá-los (ou cozinhá-los, fritá-los, tostá-los... o freguês escolhe).

Uma vez, numa balada ocorrida no porão de uma casa velha na Bela Vista, vi um cartaz com um cachorrinho desenhado que perguntava se eu comeria meu melhor amigo. Sinto muito, mas este não é um argumento bom. Eles, os vegetarianos, deveriam contratar um carnívoro como ombudsman, como publisher. Eu mesmo me candidato. Me escolham, aqui, o daltônico no fundo da sala!

Não é porque eu como carne de rã, lagarto, carneiro, macado-prego que eu vou comer meu cachorro, meu gato ou minha salamandra. Se na China isso é comum, bem, então este cartaz deveria estar em mandarim. Foco, minha gente, tenham foco!

Para finalizar, lembro que admiro (quase) todos meus amigos vegetarianos. Embora alguns estejam branquinhos demais. Eu os invejo mas, ao mesmo, fico triste porque eles não comerão esse puta pedaço de pernil suíno que vou aproveitar agora no almoço. Como diz a Cazinha, "vou ali e já volto".

Quarta-feira, Fevereiro 18

Out of service


Em busca de uma ideia que valha a pena ser apresentada. Enquanto isso, continuo na espera de uma série de decisões que não dependem apenas de mim. Em tempo: odeio esperar. Prefiro ir lá, abrir a porta e subir sobre a mesa. É nestas horas que o Dalton-fotógrafo-assassino-meu-alter-ego aflora como se fosse A Flora (foto tirada no casamento da Adriana Villares, lána igreja Nossa Senhora do Brasil, onde se casa a maior parte do PIB brasileiro).

Sexta-feira, Fevereiro 13

455


São passos bem dados numa cidade que não dorme
pegadas de histórias que a grandiosa mãe protege

pessoas boas viram más
com gente do mau que aprendeu a ajudar

metrô, ônibus, pra lá e pra cá, a vida é intensa
os encontros são superficiais
as chuvas, muitas, diluviais

e todo mundo vira imagem
na passagem
é paisagem
parece miragem
em busca da vadiagem

efêmeros, sem nexo, uma pasta cheia de anexos da vida urbana
são paulo é, como diria Jackson Five O Motoboy,
uma ferida na crosta terrestre.

Quinta-feira, Fevereiro 12

Na natureza selvagem

Foto: Divilgação

Da série “Preciso te contar o final deste filme”

Sempre achei o máximo de elegância e humildade o modo como a Adriana Calcanhotto se refere ao poeta português Mario de Sá Carneiro, que vestiu um paletó e se matou. "Ele não aguentou esperar”, ela diz no DVD Público. O mundo está cheio de deslocados, pessoas que não se encaixam e que precisam fazer alguma coisa em relação a isso. E eu os admiro fodasticamente. E os compreendo fraternalmente.

Alguns se matam. É triste, eu concordo, mas o suicídio também é uma ação compreensível. É muito mais do que uma fuga, do que um pecado, do que um ato egoísta. Todas essas definições são insuficientes para um suicida. Aliás, como ele segue uma lógica própria, está cagando e andando para as definições, ele apenas precisa, não aguenta esperar e faz.

O Chris McCandless, andarilho que inspirou o livro e o filme “Na natureza selvagem” (Into the wild) é outro deslocado pelo qual me apaixonei. E o sentido é esse mesmo: eu me apaixonei, virei fã. Um dia, sem avisar pai, mãe e irmã, ele desaparece. Doa os US$ 24 mil para uma instituição qualquer e começa a vagar pelos Estados Unidos em direção ao Alasca. Por Darwin!, como ele quer chegar ao Alasca. E chega, se esconde de todos.

Adota um nome de Alex Supertramp (Alex Superandarilho). Aprende a caçar e retirar a carne de um alce. Vive dentro de um ônibus abandonado na floresta, basicamente, lendo e escrevendo. Por um erro estúpido, ele ingere uma planta venenosa e começa a entrar em decadência. Emagrece muito, vai perdendo as forças. O corpo só foi encontrado por caçados dois meses depois que Chris/Alex morreu.

Quem já conviveu com um suicida sabe que a coisa mais tola a se fazer é tentar convencê-lo do contrário. Não há conceito religioso, argumento químico, físico ou biológico que o faça mudar de ideia. Me refiro aos suicidas de verdade, claro. A atitude mais sensata, pelo menos no modo como eu os vejo e respeito, é ouvir tudo o que um suicida tem a dizer. Ainda que seja um monte de complicações sem sentido, crises existenciais, fobias, incertezas, inseguranças.

Não incentivo o suicídio, é claro. Especialmente porque não creio na continuação da vida após a morte, penso que devemos aproveitar cada segundo que temos. Inspirar pessoas, nos deixar inspirar pela natureza, pelos filmes, pelas outras pessoas, principalmente quando elas são deslocadas. A vida é curta e precisa ser bela. Mas, por outro lado, tenho uma enorme compaixão pelos suicidas, são pessoas que escolhem seu próprio ponto final, não aceitam a decadência ou, como diz a Calcanhotto, não aguentam esperar.

Segunda-feira, Fevereiro 9

Domestética [01]


SUJEITO NA ROSEIRA DA ESTAÇÃO DA SÉ são paulo, 6.fev.2009

Domingo, Fevereiro 8

Darwin, a vida é pra beber (ou Por Uma Cuba realmente livre)

Vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.
Nestas horas, dá saudade da fazenda, dos meus pais e irmã,
e do Nemo e da Ottana, comigo na foto há dois anos. Foto de Clarice Andrade.


Da série “Ressacas memoráveis, explicáveis e imperdoáveis”

Acordei com um domingo inteiro jogado sobre meu corpo. O dia estava lindo, havia sol de sobra nas frestas da casa, mas me sentia sufocado com a existência. Não procurei, mas dificilmente teria encontrado uma parte do corpo que não doesse, que não cheirasse a cigarro ou não estivesse abarrotada como uma camisa de linho guardada dentro de uma meia velha.

A lembrança do sex on the beach misturado com cuba livre, cerveja e vodka me dava vontade de vomitar. Só não fiz isso porque o estômago continuava vazio. O passo mais adequado seria levantar o corpo podre – ou aquilo que restou dele – e procurar por água. Gelada, de preferência. Bastante, com urgência.

Na cozinha, que parecia estar a uns cem metros longe do quarto, engoli outro anti-histamínico, analgésico, antiemético que também poderia ajudar no tratamento das cefaléias, de alergia e da cinetose. Ou como dizia a embalagem, um engov. Esperava que ajudasse a tirar aqueles cinco filhotes de rotweiller que pareciam ter brotado dentro da minha cabeça. Os hits anos oitenta ainda pulavam pra lá e pra cá, eu queria desligar a música, mas não encontrava a fucking-porra do botão.

Havia comida em casa, pra variar. Mas eu não conseguia nem me imaginar abrindo a boca para acrescentar mais alguma coisa. Um suicídio seria mais agradável. Até a água ficou pesada na barriga. Era domingo, me lembrei de novo. Pensei que poderia ler o jornal, talvez ajudasse de alguma forma, ou ao menos me faria um bêbado menos ignorante. Vesti qualquer roupa e desci até a portaria de boné para não precisar arrumar o cabelo empastelado. “Deveria ter tomado a droga daquele banho antes de dormir!”.

No elevador, rezei a deus e a Darwin para que ninguém entrasse. “Eu acho que você não existe, mas se existe, me ajude, por favor.” Eu seria reconhecido imediatamente pelo cheiro e pela cara como um bêbado profissional. Não que eu me importasse com o que iam pensar, afinal, já pensam sem que eu me importem... Mas meu receio era ter de engatar uma conversa sobre o tempo, sobre política ou sobre “você é novo por aqui? Nunca te vi”, ou qualquer coisa parecida.

O tempo entre o décimo segundo andar e o chão, quando se está numa ressaca, pode ser uma longa jornada. O elevador parece mais inadequado ainda, não faz sentido que ele não despenque. Eu cheguei a torcer para que isso acontecesse quando ele parou no quinto andar. “Dá licença, bom dia. Entra, Jully, vem, menina, com a mamãe, vamos passear”, disse uma senhora enorme que tinha arrancado a tolha da mesa para usar como vestido. E tinha um chapéu igualmente colorido sobre a cabeça. E óculos escuros do tamanho de um par de vinis. E, ah, você entendeu.

Como a Jully deve ter sentido meu cheiro, saiu correndo pelo corredor. A senhora ficou em dúvida entre ir atrás dela ou esperar que a cachorrinha da marca poodle voltasse arrependida. Escolheu ir. “Você segura a porta do elevador pra mim, filho?”, ela disse, com um sorrido doce e gentil que fez a ideia de um “não, estou com pressa” parecer a coisa mais egoísta do mundo. “Claro, vai lá”, respondi.

Alguns intermináveis segundos depois, estava ela com a Jully no colo – ou era a Jully que a tinha sob o corpo? – e a metade do felipe continuava fora do elevador segurando a porta. “Brigadinho, filho”, ela disse, já ocupando mais setenta por cento do espaço interno daquela caixa.

A Jully rosnou pra mim no caminho todo, o que me fez desejar ardentemente que aquilo tudo desabasse e o mundo ficasse melhor: sem aquela mulher fantasiada de mesa da cozinha, sem aquela cachorra chata e mimada e sem este bêbado que odeia até a existência no pós-cachaça.

Finalmente, cheguei à portaria. Peguei o jornal e, para minha surpresa, uma deliciosa matéria sobre os duzentos anos desde que Darwin nasceu. Essas datas redondas talvez tenham uma finalidade no jornalismo, que é a pauta de temas essenciais que ficam esquecidos durante trezentos e sessenta e quatro dias por ano. A teoria da evolução, o criacionismo versus todas as evidências, as viagens de Darwin a bordo do HSM Beagle, nosso parentesco com os primatas e tudo o mais. Imperdível, impressionante e importante

Voltei para o apartamento e, após o banho, comecei a ler tudo isso. O mesmo assunto – de maneira mais aprofundada, diga-se de passagem – estampa as atuais edições da Veja e da National Geographic. Folheei tudo isso, olhei imagens, li algumas legendas e boxes, mas logo veio aquela vontade insana de dormir. Passar um domingo de estética única desperdiçando o corpo e a mente na cama é algo imbecil, eu sei. Mas que eu poderia fazer, se aquela cuba livre tinha me prendido fodidamente? Isso me fez lembrar do pedido de Carlos Gordon, o mais boêmio dos argentinos, que sempre pedia uma “cuba realmente livre”: sem gelo, sem limão e sem coca-cola. Talvez, se eu tivesse entrado na onda dele, estaria menos de ressaca e mais livre. Na próxima bebedeira, quem sabe.

Quarta-feira, Fevereiro 4

Sobre o Menino e o Lobo (2)

Foto: Divulgação

Da série “Yes, he can”


Existe uma semelhança entre este blogueiro e o personagem principal de “Dexter” – minha mais nova obsessão –, pois tanto ele quanto eu achamos esse negócio de “ter de ser bom” uma coisa muito bizarra. Para quem não conhece este enlatado (e está perdendo uma boa série!), em resumo, conta a história de um assassino em série que mata apenas assassinos em série. Por mais que isso pareça ser uma boa ação, o tal Dexter (Michael C. Hall) sente um enorme prazer em cortar, picotar, furar, esquartejar... essas coisas. Ou seja, de bom ele tem apenas o manuseio preciso da faca.

É muito curioso quando a namorada do Dexter o abraça e diz “Dexter, você é diferente dos outros, você tem um bom coração”. Chega a ser hilário. E, por Darwin, como ela faz isso! É ingênua, imatura, iludida, romântica.

Eu acho que o Dexter não tem nada de bom, ele apenas faz boas coisas em algumas situações. E sair matando assassinos não é exatamente uma coisa boa. E quando ele ajuda alguém de verdade, tem nada a ver com caridade, bondade, santidade ou desprendimento. Pelo contrário. Eu sempre penso que cada “ato de amor” pelo próximo é, na verdade, um grito escandaloso para a sociedade de “eu me amo tanto a ponto de incentivar essa sensação gostosa que me dá ao ajudar alguém”. Isso não é filantropia, é um egoísmo enorme.

Nunca mais me esqueço daquela crônica do Luis Fernando Veríssimo em que ele denuncia o sujeito Tímido como um cara que sempre quer desesperadamente chamar a atenção e o Extrovertido com quem não passa de um Tímido tentando dominar a situação para não cair em vexames. Faço um paralelo com esse negócio de ser bom e ser mau.

Não existe ninguém verdadeiramente bom. Nem mesmo minha avó. O que a sociedade considera como Homem e Mulher Bons eu encaro como Homem e Mulher Que Fazem Coisas Boas. Concordamos que eles são essenciais, mas discordamos sobre a essência santificada. E o mau, em alguns casos, é apenas alguém que não sabe ser gostado, não resolveu problemas sérios e começou a tocar numa frequência diferente (e perigosa, concordo).

Não deixo de fazer coisas que eu considero boas, mas sei exatamente quais são os reais motivos que me levam a elas. Quando visito um orfanato, quando faço algum tipo de doação, quando ouço um desabafo, quando ajudo aquele cego a atravessar a rua... enfim, eu estou fazendo coisas boas, mas porque eu me adoro. Se eu não gostasse de mim, tampouco gostaria de qualquer outro.

É verdade. Pare para notar.

Todo mundo conhece alguém que não gosta de si próprio (e por isso mesmo vive fazendo escolhas que provavelmente serão um fardo em breve). Essa pessoa, essa que não se ama, é totalmente incapaz de fazer de positivo para alguém.

A abordagem em favor de “um mundo melhor” está inadequada. A ideia de “amar o próximo como a si mesmo” é interessante, mas é muito inútil se antes o sujeito não entender suas escolhas, não aceitar sua condição de humano, demasiado humano.

Dexter não é bom ou ruim. Tampouco Felipe Fonseca é alguma destas definições. Somos todos, o Dexter, minha avó, você e eu, um grande pedaço de carne com ligações nervosas que podem extremamente interessantes conforme assumirmos que somos apenas isso, e nada mais. Não temos o direito de ferir nem o montante de carne alheio, nem suas ligações nervosas.

Nietzsche já seria pra mim um grande pensador se apenas tivesse escrito o “Humano, demasiado humano”. Tudo fica mais verdadeiro quando colocamos no plano humano. Penso que não existe predestinações, nem premiações celestes, nem ganhos para a vida eterna. Tudo o que faço – de bom ou de ruim – é para mim e para os que estiverem por perto. As consequências a gente vê depois como é que a gente resolve, se pela legislação ou outro caminho.

Domingo, Fevereiro 1

Percepção

Da série "¿Qué se pasa?"


Todas as teorias
as nossas divertidas explicações
suas conquistas, viagens
e poemas como desculpas para declarações
Todas as noites no trabalho
as horas de descanso debaixo da seringueira
e o carro novo que chegou pelo correio
Todas as gotas de ouro derretido
o show deserto da Alanis Morissette
e aquela blusa nova que você achou no shopping
Todas as músicas do meu iPod
as cores que eu não diferencio em você
as ruas que me levaram para lugar nenhum
a própria cidade chamada São Paulo
os cheiros que eu senti nesta manhã
e nossos encontros
Até a fotografia
os desenhos
o jornalismo
o novo filme do Almodóvar
Tudo isso
e muito mais
fica tão pequeno
quando uma criança
olha pra você por um bom segundo
como se tivesse saído de um livro de contos
fosse da Reinolândia ou de qualquer outro mundo