Vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.
Nestas horas, dá saudade da fazenda, dos meus pais e irmã,
e do Nemo e da Ottana, comigo na foto há dois anos. Foto de Clarice Andrade.
Da série “Ressacas memoráveis, explicáveis e imperdoáveis”
Acordei com um domingo inteiro jogado sobre meu corpo. O dia estava lindo, havia sol de sobra nas frestas da casa, mas me sentia sufocado com a existência. Não procurei, mas dificilmente teria encontrado uma parte do corpo que não doesse, que não cheirasse a cigarro ou não estivesse abarrotada como uma camisa de linho guardada dentro de uma meia velha.
A lembrança do sex on the beach misturado com cuba livre, cerveja e vodka me dava vontade de vomitar. Só não fiz isso porque o estômago continuava vazio. O passo mais adequado seria levantar o corpo podre – ou aquilo que restou dele – e procurar por água. Gelada, de preferência. Bastante, com urgência.
Na cozinha, que parecia estar a uns cem metros longe do quarto, engoli outro anti-histamínico, analgésico, antiemético que também poderia ajudar no tratamento das cefaléias, de alergia e da cinetose. Ou como dizia a embalagem, um engov. Esperava que ajudasse a tirar aqueles cinco filhotes de rotweiller que pareciam ter brotado dentro da minha cabeça. Os hits anos oitenta ainda pulavam pra lá e pra cá, eu queria desligar a música, mas não encontrava a fucking-porra do botão.
Havia comida em casa, pra variar. Mas eu não conseguia nem me imaginar abrindo a boca para acrescentar mais alguma coisa. Um suicídio seria mais agradável. Até a água ficou pesada na barriga. Era domingo, me lembrei de novo. Pensei que poderia ler o jornal, talvez ajudasse de alguma forma, ou ao menos me faria um bêbado menos ignorante. Vesti qualquer roupa e desci até a portaria de boné para não precisar arrumar o cabelo empastelado. “Deveria ter tomado a droga daquele banho antes de dormir!”.
No elevador, rezei a deus e a Darwin para que ninguém entrasse. “Eu acho que você não existe, mas se existe, me ajude, por favor.” Eu seria reconhecido imediatamente pelo cheiro e pela cara como um bêbado profissional. Não que eu me importasse com o que iam pensar, afinal, já pensam sem que eu me importem... Mas meu receio era ter de engatar uma conversa sobre o tempo, sobre política ou sobre “você é novo por aqui? Nunca te vi”, ou qualquer coisa parecida.
O tempo entre o décimo segundo andar e o chão, quando se está numa ressaca, pode ser uma longa jornada. O elevador parece mais inadequado ainda, não faz sentido que ele não despenque. Eu cheguei a torcer para que isso acontecesse quando ele parou no quinto andar. “Dá licença, bom dia. Entra, Jully, vem, menina, com a mamãe, vamos passear”, disse uma senhora enorme que tinha arrancado a tolha da mesa para usar como vestido. E tinha um chapéu igualmente colorido sobre a cabeça. E óculos escuros do tamanho de um par de vinis. E, ah, você entendeu.
Como a Jully deve ter sentido meu cheiro, saiu correndo pelo corredor. A senhora ficou em dúvida entre ir atrás dela ou esperar que a cachorrinha da marca poodle voltasse arrependida. Escolheu ir. “Você segura a porta do elevador pra mim, filho?”, ela disse, com um sorrido doce e gentil que fez a ideia de um “não, estou com pressa” parecer a coisa mais egoísta do mundo. “Claro, vai lá”, respondi.
Alguns intermináveis segundos depois, estava ela com a Jully no colo – ou era a Jully que a tinha sob o corpo? – e a metade do felipe continuava fora do elevador segurando a porta. “Brigadinho, filho”, ela disse, já ocupando mais setenta por cento do espaço interno daquela caixa.
A Jully rosnou pra mim no caminho todo, o que me fez desejar ardentemente que aquilo tudo desabasse e o mundo ficasse melhor: sem aquela mulher fantasiada de mesa da cozinha, sem aquela cachorra chata e mimada e sem este bêbado que odeia até a existência no pós-cachaça.
Finalmente, cheguei à portaria. Peguei o jornal e, para minha surpresa, uma deliciosa matéria sobre os duzentos anos desde que Darwin nasceu. Essas datas redondas talvez tenham uma finalidade no jornalismo, que é a pauta de temas essenciais que ficam esquecidos durante trezentos e sessenta e quatro dias por ano. A teoria da evolução, o criacionismo versus todas as evidências, as viagens de Darwin a bordo do HSM Beagle, nosso parentesco com os primatas e tudo o mais. Imperdível, impressionante e importante
Voltei para o apartamento e, após o banho, comecei a ler tudo isso. O mesmo assunto – de maneira mais aprofundada, diga-se de passagem – estampa as atuais edições da Veja e da National Geographic. Folheei tudo isso, olhei imagens, li algumas legendas e boxes, mas logo veio aquela vontade insana de dormir. Passar um domingo de estética única desperdiçando o corpo e a mente na cama é algo imbecil, eu sei. Mas que eu poderia fazer, se aquela cuba livre tinha me prendido fodidamente? Isso me fez lembrar do pedido de Carlos Gordon, o mais boêmio dos argentinos, que sempre pedia uma “cuba realmente livre”: sem gelo, sem limão e sem coca-cola. Talvez, se eu tivesse entrado na onda dele, estaria menos de ressaca e mais livre. Na próxima bebedeira, quem sabe.