Quinta-feira, Janeiro 29

Banestado


Cheio de ideias na cabeça, mas sem tempo para organizá-las na ponta dos dedos.
Ansioso por uma série de coisas que devem acontecer agora em fevereiro. Espero sobreviver para contar.

Quarta-feira, Janeiro 28

Sobre o Menino e o Lobo

Da série "Fragmentos da vida irreal"

Quando saiu de casa, o Menino ficou parado por um tempo entre a porta e o resto do mundo. As conversas com o tio Dalton, que saíra pelo mundo para matar pessoas, tinham lhe inspirado a fazer algo parecido, mas talvez sem matar as pessoas. Ainda não sabia. Era jovem, imaturo e inconsequente. Ou seja, tinha todas as características das pessoas felizes.

O Menino começou por dentro da floresta. Acreditava que quando a gente está perdido, qualquer caminho leva pra algum lugar. Não pensou que os pais, a irmã e um punhado de formigas naquela caixa de vidro poderiam sentir-lhe a ausência.

“Eu vou, mas não volto”, disse, ao dar o primeiro e mais difícil dos passos. Durante os próximos, a viagem ficou mais leve e parou de se cobrar uma razão para eles. Imaginava que ia encontrar criaturas interessantes pelo caminho, talvez até um bezerro de ouro. Algumas águias, um tamanduá e até umas formigas como as que mantinha em casa – ou melhor, na casa dos pais.

“Mas nunca imaginei encontrar um Lobo”, disse, ao cruzar com essa bela criatura pela primeira vez. O Lobo ficou olhando como se não pudesse decodificar aquele Menino, talvez por ser um dos poucos que conseguiam enxergá-lo como um Igual-Porém-Diferente (ou Diferente-Porém-Igual).

“Nós, os Lobos, nem sempre queremos ser encontrados.”
“Por quê?”
“Porque não há motivo para querermos o contrário.”
“Mas existe alguma vantagem no encontro, você que talvez ainda não tenha experimentado um de verdade. Como meus pais, por exemplo, que encontram um ao outro e a si próprios.”
“Como a Raposa e o Pequeno Príncipe?”
“Ou esses.”

Ficaram sentados olhando a paisagem. O Menino queria guardar aquele cenário num papel velho de fotografia, mas o Lobo – que estava ali há muito mais tempo, tempo suficiente para se confundir com a floresta – levava a essência da floresta dentro de si.

“Por que você saiu de casa?”, perguntou o Lobo.
“Porque não via motivo para fazer o contrário.”
“Boa resposta, mas não explica muita coisa para você mesmo.”
“Ultimamente, eu não preciso de respostas. Aprecio mais as boas perguntas.”

O Lobo queria um exemplo de boa pergunta. Antes, o Menino reparou que os pêlos do Lobo eram pêlos diferentes. Pareciam ter sido cortados pelas próprias presas, com pontas desiguais. Um visual espetado e comportado ao mesmo tempo. Anos mais tarde, escrevendo numa velha pensão no Centro da capital, o Menino chamou aquilo de Paradoxo do Cabelo Autosuficiente, um conto cheio de metáforas que ninguém entendeu.

“Pra quê serve uma dúvida como esta?”

O Lobo sorriu satisfeito. Era um bom exemplo, uma boa pergunta. E ele também gostava de metalinguagens. O resto das conversas foi igualmente estranho e “superiormente interessante”. Quando chegou a noite, como nem o Lobo poderia ficar, nem o Menino saberia o que fazer, decidiram se despedir.

“Vou pra cidade, quer me acompanhar?”
“Nem. Tenho outros Lobos para procurar.”
“Mas se eles não querem se encontrados, como você vai achá-los?”
“Eu disse que vou procurá-los, não pretendo encontrá-los.”
“Posso te dar um abraço?”
“Só se eu puder te dar uma mordida.”

Abraçaram-se e o Lobo marcou o forasteiro. Era sua forma de registrar aquela intensa passagem na vida do jovem. O Menino não reclamou, nem gritou. De uma forma inédita, achou aquilo bonito e verdadeiro. Intenso e respeitoso. Precioso e doloroso. Coisas do tipo. Muito tempo mais tarde, quando voltou a escrever sobre coisas da vida, ele disse: “Hoje encontrei o Lobo vindo das Minas. Achei que nunca mais o veria, mas ele reconheceu minha cicatriz e se compadeceu dela. Foi bom revê-lo, foi importante reencontrá-lo, talvez haja tempo para mais uma mordida.”

Segunda-feira, Janeiro 26

Fragmentos

Da série "Galera do Bar"
Marina, morena Marina

Domingo, Janeiro 25

Glorioso “Damned!”

Foto: Divulgação


Da série "Yes, he can!"

Jack Bauer e toda aquela adrenalina de “24 Horas” estão de volta. Entre os seriados, dificilmente alguém faz um roteiro tão interessante. Meu deus, como senti falta deste cara e das incontáveis vezes que ele diz “Damned!” (amaldiçoado, mas que na tradução fica melhor como “merda”, “droga”. Mas o sentido é sempre de “fudeu, caralho!”). Na internet, é possível encontrar as cinco primeiras horas desta sétima temporada, que é a penúltima. Mas antes, é preciso ver um filme de duas horas que mostra o Jack (Kiefer Sutherland) num país africano, tentando salvar criancinhas que serão recrutadas para uma luta armada.

Esta temporada tem tudo aquilo das outras tinham: traição, espionagem, sangue, tortura, perseguição, tiroteio e vontade de vingança. Mas tem um Jack mais humano, mais solitário e mais sofrido. O filme-prequel “Redemption” mostra exatamente isso: um cara que matou uma porrada de pessoas (ainda que, vá lá, quase todas pediram por isso) tentando ser apenas humano, se reencontrar.

Ainda bem que ele não consegue. No começo do filme, ele ajuda as crianças a descarregarem um caminhão com mantimentos que chega à vila. Ele até se arrisca ‘pá caralho’ para entregar os pequeninos para a embaixada estadunidense. Mas não dá para esconder que ali está o bom e velho Jack, um cara que pensa rápido, atira pra matar e sabe dizer as frases-feitas menos chavudas destas séries importadas.

Jack Bauer e Barack Obama são os heróis mais interessantes da ficção (sim, pois Obama ainda não teve tempo de sair da História e entrar na realidade). E por falar nele, se “24 Horas” profetizou a posse de um presidente negro (saudades de David Palmer), essa temporada de agora traz uma mulher no comando do país.

Da velha guarda, voltam Chloe O’Brian e Tony Almeida (Yes, he lives!). Dos novos, a presidente Allisson parece ser gente boa e o ator Jon Voight faz uma participação especial (lembra do terrorista em “Velocidade Máxima”? Então, é ele). Se eu estivesse envolvido com o roteiro, faria o pai do Jack voltar à serie e dava um jeito de ressuscitar a Nina Meyers. Mas daí ia ficar parecendo “Lost”, que, aliás, começou a quinta e também penúltima temporada. Outra série que está perfeita, especialmente agora que uma galera saiu da Ilha e precisa voltar (é o tipo de coisa para a qual a gente apenas diz “Oi?!”).

É, ano que vem será triste para quem gosta destes enlatados como eu gosto. O jeito é baixar mais um episódio. Por falar nisso, o download acabou de terminar.

(um conselho: se você costuma se exaltar durante um episódio de "24 Horas", faça como eu: encontre alguém que não te julgará se você ficar sentado no braço do sofá enquanto grita "Go, Jack, fuck them!". Fica mais divertido assim!)

Terça-feira, Janeiro 20

Diante do espelho

A verdade nunca consola

Da série “Ataques à beira de uma mulher em nervos”

- Amor, você pode vir aqui um minutinho?
- Que foi?
- Eu queria te fazer uma pergunta. Mas você vai ser sincero?
- Não.
- Oi?
- A gente sempre acaba brigando quando eu falo a verdade. Desculpe, eu prefiro mentir.
- É sério. Senta aqui. Tem que ser muito sincero, tá? Prefiro a verdade que me doa do que a mentira que...
- Pergunta.
- Se você não puder me dizer a verdade sobre isso, então eu vou achar que...
- Pergunta ou eu volto pro meu livro.
- Tá bom. Aqui vai. Eu estou gorda?
- Está.
- Oi?
- Você perguntou e eu respondi. Sim, você está gorda. Enorme. Nem sei como você passou por esta porta. Aliás, a gente pode desabar sobre o apartamento debaixo a qualquer momento por sua culpa, sua tão grande culpa, se é que você entende.
- Jura? Ai, não pode ser. Olha direito aqui, ó. Já estou nesta merda de dieta do melão com casca há cinco dias! Você está sendo sincero de verdade?
- Não, falta um pouco mais. Apenas disse que te acho gorda. Mas a verdade que você é gigante, uma balofa, uma gorda dentro de um corpo de sessenta quilos. Jesus, como você é grande!
- Como?
- Ba-lo-fa. Tipo Turma da Mônica, sabe? Vocês, mulheres baixinhas, engordam até com água. Eu diria que até pensamento engorda no seu caso.
- Credo. Grosso. Se eu soubesse nem teria te perguntado nada
- Só estou sendo sincero, amor.
- Mas... se você me acha gorda, então deve ficar me comparando com outras mulheres na rua, ou quando lê Caras no consultório, ou quando aquela prima gostosa aparece pra jantar. Você está pensando em me abandonar, hein? Diz!
- É pra ser sincero?
- Seu tonto, nunca mais te pergunto essas coisas.
- É uma promessa?

Segunda-feira, Janeiro 19

Fotógrafo abre inscrições para outros loucos

Eu recomendo aos loucos deste mundo (entenda como "pessoas interessantes que não negam a intensidade da própria existência") olharem o site do gUi mohallem, fotógrafo mineiro radicado em São Paulo que aceita inscrições para um projeto diferente de tudo o que já vi.

Eu tive a opotunidade de ver pessoalmente três imagens da exposição de Nova York e achei bastante curiosas. Difíceis de se definir. É preciso estar bem para conectar-se à loucura alheia e ter a coragem de carimbar o próprio corpo (não, não aceito carimbar papel).

foto roubada descaradamente do release do gUi, que segue na íntegra aqui embaixo

Depois de apresentar o trabalho 'Ensaio para a Loucura' em uma exposição individual em Nova York, o fotógrafo gUi Mohallem, 29 anos, decidiu expandir o projeto e abrir inscrições, em seu site (www.guimohallem.com), para a participação de interessados.

A partir da combinação de retratos perturbadores e relatos biográficos, 'Ensaio para a Loucura' procura discutir os limites da razão. Na exposição que Mohallem apresentou na galeria nova-iorquina RabbitholeStudio, em outubro de 2008, cada uma das 10 imagens captadas em pinhole digital vinha acompanhada de um carimbo. Ao carimbar um pedaço de papel (ou a própria pele), o visitante descobria um trecho de uma história pessoal – algumas vezes perturbadora – relatada pelo fotografado ao fotógrafo.

Entusiasmado com a repercussão do trabalho, Mohallem passou, ainda em NY, a entrevistar quem quisesse também contar sua história e ser fotografado. "Os primeiros fotografados eram pessoas de meu círculo próximo", diz ele. "Abrir para pessoas que eu não conhecia foi um risco grande, mas gostei muito da experiência."

A idéia de expandir partiu de Shawn Lyons, diretor da RabbitholeStudio. "O público da galeria se identificou muito com o projeto, por isso sugeri ao gUi que abrisse as inscrições. A resposta das pessoas foi tão grande que ele nem conseguiu entrevistar todo mundo a tempo", diz. De volta ao Brasil, Mohallem decidiu continuar aexperiência.

Os interessados devem se inscrever para uma entrevista como artista (e uma possível sessão de fotos) pelo site www.guimohallem.com – onde é possível ver algumas das fotos que foram expostas. Os selecionados receberão uma cópia assinada de sua imagem, numa ediçãoexclusiva. gUi mohallem é formado em Cinema e Vídeo pela ECA/USP e se especializou em fotografia e cinematografia. Foi educador em institutos de formação profissional para jovens de periferia. Fotografou para a Folha de São Paulo e para diversas empresas como Abril, Claro e Roche. Hoje se dedica quase que exclusivamente a seus projetos artísticos no Brasil e no exterior.

Informações: info@guimohallem.com

Sábado, Janeiro 17

Pisando em ovos

Pavão cauteloso é pleonasmo

Quinta-feira, Janeiro 15

Durante a volta pra casa

Da série "Ataques à beira de uma mulher em nervos"

- Um cara lá da empresa disse que tem um cara no Big Brother que é a cara do Francisco Cuoco...
- Pelo menos assim o pessoal mata a saudade dele, né? Nossa, ele era um ótimo ator.
- Como assim, Belina, ele não morreu!
- Claro que morreu, você não soube?
- Não. Você está confundindo. O que morreu foi o Raul Cortez.
- Ficou maluco, foi? Esse aí ta vivíssimo, dia desses tinha uma peça com ele lá perto de casa.
- Você é muito teimosa mesmo. É como aquele dia em que teimou que o pai da Flora era o Fernando Torres.
- Eles se parecem bastante.
- Mas não é ele.
- Pior é você que chamou minha mãe de Janaína no jantar. Jurema não tem nada a ver com Janaína.
- As duas são com jota. Eu tinha bebido, me confundi.
- Tenho certeza que você arrumou maior problemão lá em casa. Janaína é o nome da antiga namorada do meu pai. Minha mãe sempre achou que o grande amor da vida do meu pai era essa Janaína. Eles devem estar brigando agora.
- Que nada, eles devem estar transando agora.
- Hei! Respeito com meus pais, pode ser? Eles nem fazem isso.
- Todo filho acha que os pais não fazem sexo.
- Não, eles não fazem mesmo. Meu pai fez uma operação que foi uma bosta, coitado. O pingulinho dele não funciona mais.
- Pingulinho?!
- É, o pênis.
- Então não adianta sua mãe ter ciúmes dele com a tal Janaína. O pau dele nem funciona mais.
- Os ciúmes são do sentimento, não do sexo. Que nem você e aquela biscatona...
- Quem? A Bete?
- Não sei. Tem outra biscatona na sua vida?
- Você é doida. A Bete e eu somos apenas amigos. Muito amigos.
- Muito amigos demais pro meu gosto.
- Belina, ela é lésbica!
- Mas te beijou uma vez.
- Ela nunca tinha beijado homem. Quis ver como é, eu achei bonitinho da parte dela. Apenas ajudei.
- Sei. E se ela percebe que gosta da coisa, hein? Como eu ia ficar na história?
- A gente nem se conhecia ainda!
- E nem ia se conhecer! Já pensou nisso? Se você e aquela mulher tivessem namorado, você não teria participado daquela suruba e a gente nunca teria se encontrado.
- Teria sim, pois o destino sempre une aqueles que podem se amar de verdade. Me dá um beijo.
- Oh, que bonitinho. Espera um pouco, sai pra lá. Como assim “podem se amar”? Você ainda não me ama? Namoramos há duas semanas e você ainda não me ama? Quer me dizer alguma coisa? Olha pra mim quando estou falando com você!

Pedacinhos

Da série "¿Qué se pasa, chico?"

Deixaram-no todo mordido
quase quebrado
inutilizável
um homem fragmentado
este monte de pedacinhos felizes

Pedacinhos pra se juntar
grudar
partes de algo que é bom
ou ao menos faz bem
que é de verdade, mas nem nome tem

Deixaram-no com o paradoxo da dor e felicidade
da foto e sua realidade
com medo da verdadeira vontade
destas rimas sem necessidade
e outros filhotes para tratar

Esse desejo é um pequeno leão que ronda a presa
pensando se talvez tenha sobremesa
se deve colocar a mesa
se pode repetir o prato
e se tornar o rei da floresta

Não se sabe,
ninguém sabe
o futuro é uma conta de matemática
em que o dia é uma soma ou divisão

que venha o Rei Leão
as contas de matemática
a fotografia no processo vermelho de revelação

Segunda-feira, Janeiro 12

¿Qué se pasa?


Outra foto de casal.
Parque Água Brana, São Paulo (SP).

Domingo, Janeiro 11

Vacaciones: isso não me pertence mais


Este é o Ano da Biologia, título que a Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB) em comemoração aos 150 anos da publicação de “Origem das Espécies”, de Charles Darwin, cujo nascimento chega ao bicentenário também neste ano.

Para mim, é o ano de mudanças. Não mudanças de casa, emprego, cidade e corte de cabelo. Isso eu fiz em 2008. Agora é a vez de mudanças radicais (embora mudar outra vez o corte de cabelo seja interessante). Pensei em mudar de nome, virar vegetariano, casar-me com uma indiana (afinal, a nova novela está na moda). Talvez adotar uma criança, comer escorpião, mergulhar. Quem sabe, virar fotógrafo de revistinha de sacanagem, entregador de pizza amanhecida ou adestrador de moscas.
Não sei. Amanhã, volto ao trabalho, ao batente. Estou animado de uma forma estranha, parece até que quero muito trabalhar. Isso nunca me aconteceu antes, será grave? Espero que seja passageiro, que não seja contagioso e que nunca mais volte. Afinal, estas férias foram bastante agradáveis, as viagens, as fotografias, os encontros e reencontros. Muitas surpresas.
Na foto acima, um cidadão campineiro, mais precisamente de Joaquim Egydio (se for à Campinas, conheça este lugar); abaixo, um paulistano no Parque da Água Branca. Entendeu a diferença?

Aliás, no domingo, tive um tarde extremamente agradável no Parque da Água Branca. Encontrei um grupo de senhores que ficam tocando e cantando música caipira (de raiz) para uma platéia que sabe quase todas as letras. Canções como "De que me adianta viver na cidade se a felicidade não acompanhar? Adeus, paulistinha do meu coração, lá pro meu sertão eu quero voltar".


E para terminar este post (mesmo porque começou Lost na tevê), a imagem de um casal que, se não é casal, tem tudo para ser. Este livro, eu imaginei, é de poemas deste cara, algo chamado "Sobre todos os pratos e diante de todos os prantes". Ele quebrou a perna enquanto jogava futebol durante uma das aulas em uma ONG na favela, ele trabalha com crianças carentes; ela, estudante de Cinema, adorou os poemas e dele e escreveu no gesso algo carinhoso que a gente não pode saber. Por algum motivo, acordei confiante na humanidade.

Sexta-feira, Janeiro 9

Pequenas doses de uma boa ideia

As idéias estão no chão... imagem de instalação no Sesc Pompéia


Eu gosto das ideias. Das novidades, do que pode me deixar inquieto. Raramente, essas coisas chegam por e-mail. Mas, dias atrás, chegou. Um tal de Victor Hollanda me escreveu contando sobre seu novo blog, um tal de opobrediabo.blogspot.com, no qual ele e o amigo Tom Bolívar decidiram contar fragmentadamente uma história estranha.

Embora eu tenha pouca paciência para esperar pelo final do livro, acho a proposta extremamente interessante. Eles pretendem colocar um capítulo por dia e começaram a empreitada nesta semana. Tudo começa quando um cara que acorda meio desmemoriado numa vala entre carcaças. Ele encontra um urubu e uma mulher que “pra estar nessa área, deve ser puta”. O resto ainda está por vir.

Os autores-blogueiros parecem gostar bastante de Pedro Juan Gutierrez. Uma boa referência para novos contadores de história do mundo irreal. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos para ver como isso se desenrola.

Quinta-feira, Janeiro 8

Dois encontros

Em contato com a obra dos outros

Acabei de ler “Play it again, Sam – Sonhos de um sedutor”, peça deliciosa do Woody Allen. Eu gosto particularmente do humor triste, coisa que a gente também vê nos filmes dele. Quase sempre é uma história de bizarrices possíveis que nos fazem pelo menos sorrir.

Nessa peça, o personagem principal é um cara que acabou de ser abandonado pela esposa. Ele é tímido, sem jeito para paquerar e, quando está confiante demais em si, diz alguma coisa boba que só ele acha graça. Para piorar as coisas, ele se apaixona pela esposa do melhor amigo e é correspondido. É o típico cara de pinto pequeno que não sabe o que quer da vida (acredite, o mundo está cheio desta tipagem).

O nome da peça é uma referência a uma das mais famosas cenas de “Casablanca”, quando o personagem do Humphrey Bogart diz para o pianista tocar a famosa trilha sonora outra vez. Aliás, o Bogart também está na peça. Não como ator, mas personagem. Ele é uma espécie de alter ego autoconfiante do cara. Algo como Calvin e Haroldo, do Bill Watrson, sabe?

Repito, peça deliciosa.

Outra obra bastante interessante que acabei de ler é “Borges – Uma biografia em imagens”. O livro é exatamente o que diz o título e talvez por isso tenha faltado aquele gosto que só os diálogos e descrições de cenários e caráter podem proporcionar em uma biografia. Fora isso, é um trabalho belíssimo, de acabamento precioso e que traz dados importantes para se conhecer melhor a figura de Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores argentinos. O autor, Alejandro Vaccaro, outro argentino, se especializou em Borges.

Quando a gente pensa em escritor latinoamericano, geralmente vem à mente a figura de um cara de esquerda, que fumava uns baseados de vez em quando e se enquadrava na frase “padrão é não ter padrão”. O Borges foi diferente, nunca seguiu as tendências culturais do século passado. Apoiou o golpe militar na Argentina e almoçou amistosamente com o ditador Pinochet (fato que lhe ajudou a perder o Nobel, único grande prêmio literário que ele não recebeu). Não consta que tenha se drogado, que tenha feito orgias, nem mesmo pulou de pára-quedas.

Ainda que cometendo o que hoje se considera erros políticos (ainda que defendamos até o fim o sagrado direito de ser cometer todos os erros possíveis), Georgie (como era chamado pela família) foi excepcional. Era contra a escola tradicional e era um autodidata invejável. Criou inúmeros prefácios, livros de estudos lingüísticos, analisou cuidadosamente a obra do Cervantes (deveria até dormir abraçado ao Dom Quixote). Enfim, um cara de imaginação fértil. Como diz a biografia, ele é da ordem de Kafka, Proust e Joyce. Tinha uma sensibilidade incrível, conseguiu escrever maravilhosamente narrativas e poemas.

Por coincidência, ontem assisti “Garota, Interrompida”, logo após reler um poema que o Borges fez para o amigo suicida Francisco López Merino, em 1928 (p. 66):

“Si tú cubriste, por deliberada mano, de muerte,
si tu voluntad fue rehusar todas las mañanas del mundo,
es inútil que palabras rechazadas te soliciten,
predestinadas a imposibilidad y derrota”.

Outro fato que separa Borges da fórmula básica de personalidade de Grande Escritor é o amor que sentiu por poucas mulheres. Pelo menos, que tenha chegado ao conhecimento geral. O que paira é que Borges nunca conseguiu amar outra mulher além da mãe, d. Leonor. No dia do casamento com Elsa Astete, por exemplo, ele a nova mulher passaram na casa da velha para cumprimentá-la. Era lua-de-mel, na pior das hipóteses e, ainda assim, Borges quis dormir lá com a mãe. Teve uma discussão com Elsa e a coitada foi dormir sozinha no apartamento.

A mãe do Borges foi uma figura muito presente na vida e na obra. Acompanhava o escritor por onde quer que ele fosse e lhe contava as histórias familiares que impulsionaram alguns romances. São raras as vezes, segundo o livro, em que ele viaja com um amigo ou amiga. Sozinho, então, quase nunca! Talvez por isso, por ser aparentemente tão comum, é que Borges me chame tanto a atenção. Como pode um homem tão ordinário construir uma obra poética e literária tão fantástica?

Este texto já está demasiado longo, mas meu incômodo é que Borges me parece um personagem do Woody Allen: sempre apaixonadiço, sonhador e apegado. Um cara normal. Talvez ele quisesse mandar tudo às favas, fumar maconha, ter um porre, questionar o poder, andar com uma galerinha do mal. Talvez quisesse muito ser diferente, mas só conseguia o ser no papel, nos seus personagens, na sua forma de contar uma história.

Pessoa interessante, na pior das análises.

Quarta-feira, Janeiro 7

Para que servem as regras (e os fones de ouvido)



De todas as regras, as que menos fazem sentido para mim são as tais de etiqueta. Cortar a alface, comer com a mão assim, não apontar os sapatos para alguém (só para o Bush, claro) e outras invenções ainda soam bastante absurdas. E quem diz que essa coisa de etiqueta ajuda a receber melhor as visitas não sabe diferenciar as regras de uma boa educação. A pessoa educada, ao conhecer alguém ou receber um possível novo amigo, não deixa o estrangeiro flutuando pela casa, pelo salão ou pelos ares. Há uma fineza de bom trato que está além das salas de aulas e cânones do gênero.

Uma amiga minha, que coincidentemente é professora de etiqueta, sabe incluir os neo-visitantes com uma maestria de fazer inveja a qualquer anfitrião. Mesmo quando surgem aquelas conversas paralelas, ela sempre encontra um caminho para somar a experiência de todos os presentes interessados. É uma pessoa rara, por supuesto.

Eu confesso que, em situações onde conheço apenas o anfitrião ou um conhecido do amigo do vizinho de um dos convidados, fico tenso e dificulto esse processo. Tendo a pensar em uma boa desculpa para voar direto pra casa após um “deixei o doce de abóbora em banho Maria, outro dia eu fico mais tempo, viu?” ou “infelizmente, minha mãe acabou de ligar pra avisar que minha fazenda de formiga está inteira assustada com um tamanduá-bandeira que fugiu ontem do zoológico”. E meus amigos que já me acompanharam em festas e colações de grau sabem que, se penso em ir embora, já estou lá no carro, tchau.

Por outro lado, acredito que, mesmo para tímidos dificultadores de inclusão como eu, é possível vencer as diferenças com uma boa disposição em agregar. Eu mesmo já fiz muito disso neste tempo de São Paulo. Apresentei amigos mais diversos dos outros e conseguimos todos ter noites agradáveis de pizza, vinho e queijo. Na dúvida, a partir de agora, se eu for chamado para qualquer festa em que conheça poucos convidados, levo um fonezinho pra ajudar a passar o tempo.

Domingo, Janeiro 4

De volta para minha terra

Velocidade turbo!
Fiquei emocionado ao rever São Paulo. Dez dias de peregrinação pelo Interior (Avaré, Cabreúva, Salto, Itu e Jundiaí) fizeram bem a esta alma, mas o caos dos perigos urbanos fez igualmente falta. Estou ciente de que esta não é minha terra natal, mas é o local onde consigo sobreviver da melhor forma, encontro forças, interesses. Essas coisas.

A Barra Funda estava tão lotada quanto no dia 23 de dezembro do ano passado. Parece que voltei com os mesmos fugidos com quem fui. Quando cheguei ao prédio, quase podia abraçar os porteiros e dançar “Veinte Años”, do Buena Vista Social Club, com eles. “Es un pedazo de alma que se arranca sin piedad.”

Cheguei com o coração mais leve, mas a mala voltou mais pesada. Évélise voltou turbinada e acompanhada, a vida de Borges me caiu no colo e agora tenho uma pequena lista de “1001 filmes para ver antes de morrer”. Presentes especiais para guardar para a vida inteira.

Das muitas coisas interessantes que ocorreram nesta pequena viagem fragmentária, creio que ter nadado novamente no lago foi uma das mais simples e prazerosas. Meu primo me acompanhou e aproveitei para roubar a alma dele. As conversas com a Maestra sobre política, cultura e a incoerência existencial da pós-modernidade também foram inesquecíveis. Rever a Des, abraçar o Nemo, trocar o pneu da Marcita, discutir com a família... meu deus, quanto tempo eu não fazia este tipo de coisa! Pequenos encontros impagáveis.
Garoto impagável, salto impecável