Eu nunca me senti um adequado. Aliás, desde menino eu mês senti um pouco às margens de qualquer classificação, incapacitado para ser avaliado. Acho que sempre fui ou sub, ou superestimado. Sempre descordei de elogios ou ofensas direcionados para mim. Não aceitei quase nenhum convite, mas me candidatei a cargos e relacionamentos que atraíam. Fui amado, rejeitado, mas nunca esquecido.
Sábado que passou, decidi não perder a pequena temporada de “O Menino da Fotografia”, de Fernando Bonassi, no Caixa Cultural. Na há muito que se dizer sobre a peça além de “maravilhosa” ou sobre Eucir de Souza, protagonista deste monólogo, além de “um ator na medida certa”. A história é uma auto-avaliação de uma fotografia dessas que antigamente se tirava ao lado da bandeira do estado e da nação. Entre as frases espetaculares da peça, “há tempo enorme se passando agora mesmo” me chamou muito a atenção.
Entendi a peça como um chamado para realizar e viver coisas despadronizadas enquanto temos a chance. Atividades sem uniforme, livros fora de qualquer lista, peças do circuito alternativo, pão de queijo naquela padaria desconhecida. Enfim, por uma vida mais intensa e diferente.
Na semana passada, no texto “Diego, César e Nós”, publicado na Folha, o Contardo Calligaris (jornalista e psicanalista) escreveu algo nesta linha defendendo que precisamos de mais paixões (no sentido de “coisas que adoro fazer”) e menos delírios. Tem eco com a palestra da Nelida Piñon durante a Bienal, quando esta doce-meiga-adorável escritora disse que o Eros está em tudo aquilo que se realiza com amor, intensidade.
Eu, que tenho buscado Eros no meu dia-a-dia, continuo não me encaixando em qualquer tipo de agremiação. Não é um sentimento niilista, pelo contrário. É uma invejável solidão. É um não querer, ou um não se candidatar a qualquer time, religião, partido político, sindicato ou clube.
Admiro quem tem fé, mas quase nunca concordo com a crença; aplaudo rebeldia, mas ainda não encontrei a minha revolução social; respeito tiranias, mas continuo longe de ideologias. Como canta a Adriana Calcanhotto, “eu gosto dos que têm fome, dos que me morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”. E, claro, não gosto do bom gosto.
Eu me sinto um pouco assim. É uma escolha, afinal.
Preparado
Esta semana é a semana Pré-Porto-Alegre. Viajo para cobrir o principal evento agropecuário do sul e confesso que a expectativa de finalmente conhecer um pedaço do Rio Grande do Sul é grande. Um pouco por influência da mídia, outro pouco pela descrição que meu pai fez dos pampas e um muito porque imagino que lá ainda será possível encontrar mais do frio.



