Segunda-feira, Agosto 25

Singularidades

Praça da Sé - São Paulo, muita razão para estar aqui, apenas está. Eu não sou muito fã de catedrais e templos diversos, mas desta eu gosto particularmente

Eu nunca me senti um adequado. Aliás, desde menino eu mês senti um pouco às margens de qualquer classificação, incapacitado para ser avaliado. Acho que sempre fui ou sub, ou superestimado. Sempre descordei de elogios ou ofensas direcionados para mim. Não aceitei quase nenhum convite, mas me candidatei a cargos e relacionamentos que atraíam. Fui amado, rejeitado, mas nunca esquecido.
Sábado que passou, decidi não perder a pequena temporada de “O Menino da Fotografia”, de Fernando Bonassi, no Caixa Cultural. Na há muito que se dizer sobre a peça além de “maravilhosa” ou sobre Eucir de Souza, protagonista deste monólogo, além de “um ator na medida certa”. A história é uma auto-avaliação de uma fotografia dessas que antigamente se tirava ao lado da bandeira do estado e da nação. Entre as frases espetaculares da peça, “há tempo enorme se passando agora mesmo” me chamou muito a atenção.
Entendi a peça como um chamado para realizar e viver coisas despadronizadas enquanto temos a chance. Atividades sem uniforme, livros fora de qualquer lista, peças do circuito alternativo, pão de queijo naquela padaria desconhecida. Enfim, por uma vida mais intensa e diferente.
Na semana passada, no texto “Diego, César e Nós”, publicado na Folha, o Contardo Calligaris (jornalista e psicanalista) escreveu algo nesta linha defendendo que precisamos de mais paixões (no sentido de “coisas que adoro fazer”) e menos delírios. Tem eco com a palestra da Nelida Piñon durante a Bienal, quando esta doce-meiga-adorável escritora disse que o Eros está em tudo aquilo que se realiza com amor, intensidade.
Eu, que tenho buscado Eros no meu dia-a-dia, continuo não me encaixando em qualquer tipo de agremiação. Não é um sentimento niilista, pelo contrário. É uma invejável solidão. É um não querer, ou um não se candidatar a qualquer time, religião, partido político, sindicato ou clube.
Admiro quem tem fé, mas quase nunca concordo com a crença; aplaudo rebeldia, mas ainda não encontrei a minha revolução social; respeito tiranias, mas continuo longe de ideologias. Como canta a Adriana Calcanhotto, “eu gosto dos que têm fome, dos que me morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”. E, claro, não gosto do bom gosto.

Eu me sinto um pouco assim. É uma escolha, afinal.

Preparado
Esta semana é a semana Pré-Porto-Alegre. Viajo para cobrir o principal evento agropecuário do sul e confesso que a expectativa de finalmente conhecer um pedaço do Rio Grande do Sul é grande. Um pouco por influência da mídia, outro pouco pela descrição que meu pai fez dos pampas e um muito porque imagino que lá ainda será possível encontrar mais do frio.

Sexta-feira, Agosto 22

Uberaba

Comi uma fatia luminosa
e não quis mais sair de lá
Estava quente dentro do frio
um rosto difícil de se encontrar

Deixei histórias pra trás
que talvez sejam partes do futuro
Vieram antes do tempo real
antes, pra me fazer maduro

***

Semana intensa. Viagem para Minas Gerais encaixada na rotina. Queijo Branco. Fotografias da madrugada. Risos sinceros. Sem dúvida alguma, a viagem mais proveitosa dos últimos dias. O melhor foi o silêncio interior, o ponto certo para virar o disco. Começa a tocar, a partir de agora, o Lado B. Não está ouvindo?

***

Finalmente, os Jogos Olímpicos estão próximos do fim. Tenho o direito de não agüentar mais ouvir, ver, ler sobre isso. O jornal chega mais tarde nas Olimpíadas, pois o caderno de esportes é o último a fechar. Fazem tanta seriedade sobre algo que não muda nossa vida. Quer deveria ser apenas diversão. Nossos atletas (são nossos?!) ficam numa pressão desumana, o Galvão Bueno fala em destino, desgraça, faz tempestade em copos d’água. Enche o saco ser brasileiro nessa hora, embora eu suspeite que seja essa ufania em outras partes do mundo.

Quinta-feira, Agosto 14

Éééé...

gettyimages

...pelo jeito este blog (ou seja lá o que isto seja) mudou (outra vez) de cara. Um aviso (alerta) aos poucos navegantes (quase tão desocupados quanto eu): estas alterações de cor, fonte e blábláblá (frescuras) não são eternas (tão pouco profissionais), apenas ficarão até eu enjoar delas (ou até aprender a fazer direito, coisa que dificilmente se sucederá).
Entrem aqui e aprendam.

Terça-feira, Agosto 12

foto revelada

De uma forma bem estranha,
você é uma fotografia que eu deixei escapar


Gostei do jeito que você me encarou
mas não de quando você desviou o olhar
gravei-te numa foto e a revelei
na melhor parte que existe em mim

O vento, que é cruel como o tempo,
te arrastou pela praia e sinto que te perdi

Confesso
senti vergonha de sair correndo entre os guarda-sóis
o vento parecia mais rápido do que eu
Fiquei enterrado na areia,
Curtindo a dor de viver um adeus

Eu deveria ter corrido
nem que fosse para me arrepender depois
Não se deixa uma fotografia voar assim
tal qual não se deve ficar longe de quem a gente ama

Não me torturo mais
Penso que algumas fotos são feitas pra voar
Mas, ciumento que sou,
queria ter de volta o cheiro daquela imagem,
a fina cama de tinta fresca
a ampliação de um dez por quinze em cartaz

Queria te pregar na parede,
te dar uma rotina com a qual brigar
uma moldura nova
e um prego no qual se machucar

o abraço continua a espera da tua fotografia
embora haja uma sensação ruim
de que uma imagem
não se repete
mais

Segunda-feira, Agosto 11

Outras pequenas grandes coisas

Quanto mais certo, pior


ESCALADA
Nesta edição você vai conhecer as receitas da mulher mais gorda do mundo, que chegou a perder duzentos quilos em um mês. Nosso enviado especial ao Vaticano mostra como são feitas as hóstias do papa e o quarto segredo de Fátima. Na Turquia, imagens impressionantes provam o que os ecologistas avisam há quase uma década. E ainda: os gols da rodada. A volta de Ronaldo, o fenômeno. A mancha no vestido de um milhão de dólares. E uma entrevista exclusiva com a cantora mais polêmica do momento. O jornal (acrescente qualquer nome) está no ar!
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QUE PENA
Tão rápido quanto o frio das manhãs paulistanas é o beijo dado em Casablanca.
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MAINÓRITI RIPÓR
Se é possível encontrar alguma filosofia nos filmes de Steven Spielberg, acho que ontem, quando assisti Minority Report – A Nova Lei pela quinta vez, identifiquei a principal mensagem do filme. As transparências enganam. O sistema dos precogs é tão perfeito, tão “comercial de margarina” (para usar uma expressão dura e cruel), que só pode ser uma mentira. Quem assistiu ao filme deve se lembrar que a frase “se há uma falha, ela é humana” resume bem a espinha dorsal da história. Mas, para mim, a moral está na transparência das aparências, da imagem que é muito mais algo parecido com a pintura do que com o documento. Um filme pipocamente interessante.
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SEÇÃO EU VIVI (novidades do mundo antigo)
Cavaleiros do Zodíaco. ICQ. Cigarrinhos de chocolate Pan. Atari. Abraço de vó. Bronca de vô.
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CONCORDÂNCIA
Hoje, na coluna da Fabíola Reipert (Folha Online e Agora): “Boa parte dos humoristas que participaram dos quatro festivais de piadas do programa de Tom Cavalcante, na Record, foram parar no ‘Domingão do Faustão’, na Globo”. Um tipo de erro muito comum e fácil de passar pelos filtros de quem escreve. Como o sujeito da frase é “boa parte”, o ideal seria “foi parar”. E, sim, eu leio Fabíola Reipert. E gosto muito, aliás.
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ÚLTIMA CONSTATAÇÃO DA FASE TRISTE
O teu tempo é diferente do meu. Infelizmente, o sentimento também.

Quinta-feira, Agosto 7

As transparências enganam

Ontem fui ver “Vestido de Noiva”, montagem pós-moderna da peça do Nelson Rodrigues pelo grupo Satyros. É o tipo de programa, imbecilmente, eu ainda não tinha feito aqui na capital. Foi perfeito! Com performances mudas, vídeos no meio da história e uma bola gigante que é arremessada ao público, essa montagem é um contato importante com o trabalho do N. Rodrigues. Eu já tinha lido. Percebi que eles fizeram algumas mudanças que deixaram o enredo um pouco mais atual e surreal. As projeções de uma noiva se vestindo, porém, e o trailer de O Vento Levou mostraram que, nestes tempos iconográficos em que vivemos, a forma é o novo conteúdo. Tudo aquilo que se tem a dizer sobre algo é extremamente dependente de como essa opinião será apresentada. A tal da plataforma. Para quem está(rá) na capital, a peça fica em cartaz no Centro Cultural São Paulo (Estação Vergueiro ou Paraíso) até o dia 14 de setembro. E, como um bom teatro, custa R$ 15,00.
Existe outra marca pós-moderna nesta montagem além da presença dominante da imagem. Os atores (e não só as atrizes) banalizam o vestido de noiva. Tiram de qualquer ambiente sacro aquela idéia branca da virgindade, da pureza mariana, da elevação do espírito. Aliás, o que o Nelson Rodrigues nos mostrou muito bem é que, de uma forma ou de outra, somos todos muito canalhas. Cheirosos, musculosas, bem penteados e elegantes. Mas superiormente canalhas. Todos os personagens vestem o traje da noiva no final. É bizarra a cena final, com os atores (homens peludos, inclusive) vestidos daquela roupa que, pensando bem deste ângulo, é bem esquisita.

LIVROS DAS CITAÇÕES
Ontem, a frase mais marcante da noite foi “As transparências enganam”, de uma outra peça citada pelo Fabrício Trevisan. Mas há uma outra do Nelson Rodrigues de que eu gosto bastante: "Não aceito censura nem de Jesus Cristo", o que é muito interessante, já que nós sabemos que o dramaturgo foi um dos pouquíssimos intelectuais que apoiaram a Ditadura Militar no Brasil.

Segunda-feira, Agosto 4

Um Coringa na manga

A foto é de Lara Gordon, mas a pose-barriga-varanda me pertencem. Imagem de minutos antes de ver “Batman – O Cavaleiro das Trevas”


O novo filme do Batman é sobre o Coringa. Alguém já deve ter escrito isso, pois é uma constatação muitíssimo óbvia. Heath Ledger é o melhor Coringa, até mais interessante que o dos quadrinhos. No filme, o Batman me deu raiva, parece uma Donatela Fontini, que sofre muito até provar que é “do Bem”, se é que tem alguma vontade de provar alguma coisa para alguém. Não, ele não tem. Apareceu este conceito de que as pessoas não precisam saber sempre a verdade inteira. Outro ponto imperdível do filme. Ficou nas entrelinhas e no desfecho a história. Quem já passou por perguntas indiscretas ou comentários imbecis sabe que a mentira, sem aquele medo cristão de ir para o inferno, tem sido muito necessária nos dias atuais. Falta privacidade, intimidade, e falar “não-é-da-sua-conta”. Coincidentemente, Danuza Leão escreveu algo assim na Folha de domingo. O Coringa me ensinou muita coisa neste final de semana. Uma das maiores é: não se leve tão a sério; aprenda a negociar com seus inimigos; depois você dá um tiro neles e tudo ficará bem.

OUTRA VEZ?
Já me cansei do assunto Olimpíadas 2008. E olha que elas nem começaram de verdade... E a Globo já vai começar a filmar a nova novela das seis, que vai falar sobre a China. E Batman foi filmado na China. E nesta semana tem um workshop sobre como aproveitar o mercado chinês. Ontem, tinha uma moça lendo um livro em mandarim no metrô. O McDonald’s lançou um cardápio chinês (que dizem ser bem ruim). Me avisaram no sábado que este ano é o ano do Rato, o mesmo animal do ano em que eu nasci. E abriram um restaurante chinês aqui perto do meu trabalho. No shopping perto de casa estão trocando real por Yuan Renminbi, a moeda chinesa. E todo dia de manhã tem uma chinesa que, antes do Bom Dia Brasil, fala “Boa Sorte Brasil” em mandarim. Desculpa, mas cansei antes da hora.
EXPLICAÇÕES
Escrever assim, em picadinhos, é uma puta sacanagem. É preguiça de quem não quer desenvolver mais idéias no mesmo assunto e gula de quem deseja escrever sobre todas as coisas ao mesmo tempo. Fazer o quê?