Quinta-feira, Janeiro 31

A arte do desencontro

Encontrar pode ser sorte, mas desencontrar certamente é um dom! E eu o tenho muito bem aprimorado por sinal. Sou o cara mais desastrado que eu conheço: se lavo louça (sim, eu lavo louça lá em casa!), minha mãe já fica esperando um TRASH qualquer porque quase sempre eu quebro alguma coisa (da série "coisas que aprendi com meu pai"); se eu tenho de fotografar em alguma cidade que eu não conheço, acredite, eu vou me perder (por isso tenho saído mais cedo de casa em dias assim); se preciso me lembrar de algo, se eu não anoto, uma certeza: eu vou me esquecer.
Convivo bem com isso, afinal, eu tive vinte e três anos para me acostumar. É parte de mim e aceito isso numa boa.
O problema é quando isso é ampliado para algum relacionamento. É a tal da perda. Eu sei, eu sei, “a gente só perde para ganhar” e blábláblá. O mais difícil é lidar com a frustração, com a sensação de ter sido capado e de que alguém está balançando o pinto pendurado na sua frente (na minha frente, no caso). Creio que todo mundo passa por isso algum(ns) dia(s) na vida. Eu poderia dizer “normal”, mas prefiro o conceito de “comum”, me parece menos conformista.
A verdade é que um homem com pinto tem muita vantagem em relação a um capado. Não sei bem como transferir essa metáfora para as mulheres, talvez caiba algo como “uma mulher com clitóris tem muita vantagem em relação a uma gileticamente modificada” (humor negro numa hora dessas?!).
O fato é que a recuperação sempre vem. Ou nasce outro pinto, ou alguém gruda de volta o seu, ou se aprende a usar o dedo e a língua. Não quero parecer (mais) obsceno, mas a verdade é bastante nua nesta arte do desencontro. Não vou tentar mudar meus desencontros, mas quero descobrir as maravilhas que um desencontro pode proporcionar.
Não, eu não perdi meu pinto. Isto tudo é uma metáfora para o desencontro e... ah, quem tiver ouvidos, que leia!

ENCONTRO(1)
Dica muito boa do meu tio lá da Terrinha Lusitana: http://www.umafotopordia.blogspot.com/.

DESENCONTRO
Impossível achar “Na cama”, filme chileno muito recomendado ultimamente. Itu é uma desmaravilha neste sentido, tal qual todo o interior do Estado. Outra dificuldade é achar alguma livro do Fernando Sabino na única livraria da cidade. Eita, "mundão véio".

ENCONTRO(2)
Para quem não soube (ou melhor, para quem eu não telefonei ou escrevi contando), ontem o Estadão publicou uma foto que fiz do administrador da Fazenda São José (coincide e respectivamente, pai que eu tenho e lugar onde moro). A imagem saiu na capa do suplemento Agrícola, meu primeiro grande (graaaaande) freela. Foi esta daí abaixo.

Sexta-feira, Janeiro 25

Vôo 454


Hoje é parabéns da minha grande amiga São Paulo. Companheira fiel e desavergonhada, me permitiu fazer mais de mil fotos no ano passado e escolher 35 que integraram o meu projeto experimental.
Muitos textos, imagens e blá-blá-blá saíram na imprensa hoje, mas, se tiver que escolher apenas um para ler, fique com o suplemento Eu&Fim de Semana do Valor desta sexta. A foto da capa já compensa tudo. Eu acompanho há mais de um ano esse caderno e creio que a edição de hoje é uma evolução. Segundo a matéria principal (“A capital da Solidão”), São Paulo tem 720 mil pessoas que moram sozinhas, a maioria por escolha própria. Os jornalistas Tom Cardoso e Robinson Borges contam o que essas pessoas fazem para se divertirem sozinhas na capital e outros blás.

E é foda esse trecho da coluna do Simão na Folha de hoje (fenomenal, como quase sempre): “E eu sempre repito isso: São Paulo tem 679 peças, 234 shows, 1.200 cinemas. Aí você grita: ‘OBA! Vou ficar em casa!’.” Viva o excesso! Viva São Paulo! Dá licença que vou pingar meu colírio alucinógeno.

E, numa piada com a Camila Babylom, concluí muito facilmente que o Rio de Janeiro é a obra-prima de deus. Mas daí o super-poderoso olhou bem para aquilo e disse: “eu posso melhorar”, daí caprichou e criou São Paulo. Rio é cidade maravilhosa, São Paulo é indefinível.

E o Arnaldo Antunes diz na Trip deste mês (maravilhosa, aliás) que é contra o projeto Cidade Limpa, que ele gosta mesmo é daquela bagunça de anúncio, aquele excesso de outdoor. Para se pensar, claro.

E se eu tivesse que escolher algo para sempre de SP, dá licença, certamente seria a Avenida Paulista. Pode parar, que eu vou subir!

Quarta-feira, Janeiro 23

Vai indo que eu não vou


Depois a gente se fala
Talvez até a gente se encontre
Conto tudo pra você
e digo ao povo que assumo: gosto de te querer

Mas agora quero é ficar aqui
Que meu tempo é diferente do teu
Minha estrada corre paralelo à tua
Você já percebeu, eu não moro nesta rua

Estou aqui no meu colchão
meu travesseiro pra se dormir sozinho
O verão neste país anda muito frio,
neste inverno faz falta um carinho

Cartas e palavras não me bastam, sinto muito
Na verdade elas me cansam
Queria mesmo era sentar na grama
rolar na lama
fugir da fama
me esconder na tua mama
Mas estou vendo que não dá,
valeu,

a vida segue seguindo

Me liga depois
outro mês, outro ano, outra vida
Vou ficar quietinho
Pequeninofelipinho
Sigo aqui, feito porco, construindo meu ninho
feito de leite, carne e carinho

Estou virando a cura da minha própria catapora
Me abasteço todo dia por aqui
No fim e no meio das contas, virei um homem feliz que chora
e não mais um triste que sorri

SEM HUMILDADE

Como dizia o velho sábio de Querengué, humildade é para os fracos. Então, modéstia bem à parte, acho essa foto esplendorosa. Eu a fiz numa empresa daqui de Itu, em dezembro. Creio que ela tem uma mistura de sentimentos e belezas diferentes, mas não cabe ao fotógrafo pensar sobre a imagem que já foi registrada e sim aos que, humildemente, a observam. Entendeu?

MORTES DIFERENTES

"Getúlio Vargas suicidou, Nietzsche enlouqueceu e eu não vou nada bem" (Seu Jorge, "Chatterton"). Estou a pensar outra vez sobre a temática do suicídio, especialmente depois da suspeita de que o Heath Ledger tenha se matado. Minhas teorias sobre o assunto são impublicáveis, tanto quanto minha admiração (o insignificável bom-senso pede que opiniões sobre o assunto sejam sempre cuidadosas). Mas que a música do Seu Jorge (gravada com a Ana Carolina) faz um puta sentido... bosta!, e como faz.

Essa notícia me fez lembrar do livro do Antonio DiBenedetto "Os Suicidas" (se dê esse presente, leia esta obra). Um jornalista, filho de um suicida, chega à idade do pai quando ele se matou. A dúvida é: matar-se ou não? O livro é ficção, mas traz documentos importantes sobre o tema. Inclusive, sobre suicídio entre outros animais.

E tem o filme "As Horas", mas este aqui dispensa qualquer, absolutamente qualquer elogio.

E este quadro do Manet que, aff!


"Deutsch: Selbstmörder", 1877.

Terça-feira, Janeiro 22

La increíble historia de los Amores Perros


Quem já falou de filme comigo sabe que “Amores Perros” (aqui no Brasil, Amores Brutos) é um dos cinco filmes que eu recomendo para mentes inteligentes. Há ali, uma metáfora sobre o quanto amamos cachorros talvez apenas para ignorar que não queremos dar amor às pessoas. Mas não há moralismos, é apenas uma visão. E um filme espetacular.
Pensei sobre isso ontem, quando Nemo e eu brincávamos. Aproveitei para fazer essa foto acima. Como eu gostaria de estar ali, no mesmo horário e com o mesmo agasalho, o mesmo frio e a mesma máquina fotográfica, mas com outro amor perro. Mas o Nemo é um companheiro interessante que, mesmo limitado, me diverte bastante.
Aliás, meus cachorros têm me ensinado muito. Uma das principais lições é que, às vezes, a gente tem que se afastar para não morder; outra é que latir pode ser útil, mas seu ouvinte pode ignorar ou apenas gritar “vai deitar”. Cachorros sabem reconhecer os momentos ideais para atitudes irracionais.
Uma coisa leva à outra. E esse “vai deitar” – que, aliás, eu disse para meu cachorro quando me cansei de correr na grama – me fez lembrar de uma frase do Chico Buarque, da música Bom Conselho: “não adianta dormir, que a dor não passa”. E tem aquela do Leoni “mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar”. Eu não quero que passe. Nem que cicatrize. Como já se disse em algum poema, os cortes dos espinhos para lembram que nem só de rosas se faz a vida.
O fato é que tenho escrito como nunca. Fotografado, então... Haja vista essa foto psicodélica do Nemo. A dor, para algumas pessoas, é fossa! Para mim, é inspiração. E dito, assim, dor parece uma palavra muito forte. Dramática demais. E eu já disse que tenho problemas em nomear os momentos, prefiro apenas vivenciá-los conforme aparecem. Mas “dor” define alguma coisa, sim.
Por isso ontem corri com o Nemo. Hoje escrevo sobre lembranças e o cheiro do beijo (não no Nemo, é claro). Amanhã, talvez, eu esteja em São Paulo, diante da Paulista e também lá me lembrarei de coisas que me ensinaram os cachorros. Mas a Paulista é papo para um outro dia, um outro texto.

CONTO
Comecei um conto ontem chamado “O homem que não tinha referências”. Como todos os meus outros contos, este não vai ser terminado. Mas gosto do enredo: rapaz de vinte anos que nunca trabalhou termina a faculdade de administração e resolve procurar emprego após o suicídio da mãe. Sem referências, seu inglês e espanhol fluentes contam pouco e ele fica horas na fila para agendar uma simples entrevista. A vida vai se arrastando, se arrastando e quando ele percebe, sua namorada está grávida e o filho não é dele. Ele resolve assumir a criança, meio com aquela cara de Nicholas Cage (a eterna expressão de “oi?”), e depois some. Assim, sem dar notícias nunca mais. Típico de quem não tem as rédeas da própria vida. Vou deletar o arquivo. Só queria contar essa história. É triste. Contei.

Segunda-feira, Janeiro 21

Sobre ex-meninos e quase lobos


Terminei de ler “Até o dia em que o cão morreu”. Um bom livro. Nele, o Daniel Galera conta a história de um homem que vive sozinho em um apartamento em Porto Alegre. Aos poucos, meio sem querer, ele vai vencendo o medo de relacionar-se com dois personagens: um cachorro que ele chama de Churras e a modelo Marcela, com quem ele transa algumas vezes por semana e depois faz de tudo para se livrar dela.
É um livro rápido. Não superficial, porque a superficialidade muitas vezes está em quem vê e não necessariamente em quem mostra. São apenas 99 páginas para contar uma história sem grandes viradas e que, especialmente para mim, permite algumas. A principal delas é a liberdade que o personagem tenta conceder à quase-namorada e ao Churras. Ambos se vão e sempre deixam no ar um sentimento de não-volto-mais. Quando retornam, e ele percebe o quanto sentiu falta dos dois, ele tem a chance de pedir a mão da moça e colocar uma coleira no cão. É o eterno paradoxo que sempre me faz acreditar que a melhor qualidade do ser humano é a liberdade, mas que tanto tem me machucado.
Outra semelhança que encontrei é a vontade de morar sozinho e a incapacidade de lidar com algumas crises que essa situação cria. O personagem passa por dificuldades financeiras e começa a questionar sua desejada solidão. E seus pais sempre lembram que as portas estão abertas para ele voltar pra casa. Nisto, somos muito parecidos. Nem tanto no pouco dinheiro ou pela solidão, mas pelos pais que sempre estão a lembrar que o ninho ainda está quente. Isso me incomoda de um lado, mas me comove por outro. Outro paradoxo.
Sobre a rapidez do livro – eu o li em dois dias – concluí que a frase do Fernando Pessoa de que “tudo vale a pena se alma não é pequena” se encaixa perfeitamente. “Até o dia em que o cão morreu” não tem nenhuma perfeição literária, é narrado tão coloquialmente quanto uma conversa com um amigo gaúcho, inclusive com algumas gírias como “tribem”. Mas a maior diversão está dentro da gente, assim como a capacidade de aprender com uma história simples, de um cachorro que, como quase todos os outros do planeta, pode nos ensinar um pouco de decência.

DA SÉRIE 'DEFINIÇÕES QUE COPIEI'
No filme “Adaptação”, há uma definição particularmente interessante: o amor não é quem ama você, mas é quem você ama.

SERÁ?
Dizem que na vida a gente apenas perde para ganhar. Estou esperando pelos ganhos... de coração aberto, a cara lavada e o corpo pronto pra pular. Eu não tenho muita pressa, posso esperar. Mas, quando o que o ganho aparecer, vou agarrar como se fosse o último oxigênio do planeta, a última gota dentro da placenta. E daí eu, em Pásargada, também serei feliz.

Terça-feira, Janeiro 15

O cheiro do beijo


Cinco coisas me fazem chorar: despedidas, final de filme, Caetano Veloso cantando “Cucurrucucú Paloma”, qualquer pessoa cantando “Cucurrucucú Paloma” e o cheiro de um beijo. Eu chamo de cheiro do beijo aquele aroma que fica sobre o bigode, aquela temperatura que fica sobre a barba, a textura da camisa que ficou apenas semi-aberta, os lábios mordiscados... é impossível explicar em um texto o que é o cheiro do beijo.

FRASE
Há um gosto forte de mostarda em cada despedida.

PHOTOS
Dizem que, se uma foto precisa de explicação, então ela não é boa. Mas entendo isso como uma informação a mais, neste caso. Estes acima e abaixo são a Dona Laura e o Sr. Não Me Lembro o Nome Dele (lo siento). Registrei os dois numa corrida de trekking que ocorreu em Itu em abril de 2007. Meu TCC, à época, era sobre idosos que praticam esportes de aventura. Um tema, por si só, pós-moderno, claro. Mas resolvi migrar para São Paulo em movimento porque tinha mais a ver comigo. Um dia serei um idoso (não garanto os esportes de aventuras), e em breve quero voltar a esse projeto. Ou não.

Segunda-feira, Janeiro 14

encontros solitários


Havia um bom tempo que eu não ia ao cinema sozinho. É que havia um bom tempo que eu não me era. Aliás, este final de semana foi decisivo para me reencontrar, foi casulo, foi toca da raposa, banho-maria para pensar sobre coisas efêmeras como, er, a própria vida. Não tomei decisão nenhuma, apenas percebi aquelas que, há meses, estavam sendo preparadas por mim.
E vive uma experiência que mostra como é curiosa a sensação capitalista de que só no muito é que existe a felicidade. Prova disso é a dificuldade que algumas muitas pessoas têm em ficar sozinhas. Para ler um livro. Ir ao cinema. Cantar de cueca pela sala. Ou apenas ficar a fazer nada (que, diga-se de passagem, é uma arte para a qual poucas mentes estão verdadeiramente preparadas). Um exemplo. No cinema, enquanto eu esperava pelo início da sessão de “Meu nome não é Jhonny” (obra-prima, aliás, bastante recomendável às mentes inteligentes), casais também faziam o mesmo. Pode parecer paranóia, mas alguns olhares pareciam estranhar o meu desacompanhamento.
Ora, de verdade, eu estava melhor acompanhado que eles, pois terminei de ler, ali na fila mesmo, outro livro do Saramago e comecei “Até o dia em que o cão morreu”, uma obra muito apropriada para o assunto porque nele o escritor Daniel Galera conta a história de um homem que vive sozinho em um apartamento em Porto Alegre e se recusa a procurar trabalho, a sair de casa. Ainda está em processo, mas sei que aparece um cachorro e, a notar pelo título, tem tragédia pela frente.
Não escrevo tudo isso para tentar me convencer de que ir ao cinema sozinho, bem como andar pela maravilhosa Avenida Paulista desacompanhado, seja bom. Eu realmente creio que é ótimo! É saudável ter amigos por perto, um amor para cultivar ou apenas uma beleza para admirar. Mas, caso o mundo esteja distante demais, ou os violentos desencontros da vida te afastem de quem você queria por perto, ainda assim, vale a pena descobrir o mundo. O livro. O cinema. E a própria vida que se esconde nestes encontros solitários.

OUTRA VEZ, O CINEMA
Neste final de semana, outros três filmes me marcaram bastante. O estadunidense “Transamérica” me fez pensar, chorar, rir e pensar; o brasileiro “Janela da Alma” me fez pensar, fotografar, imprimir e sorrir; o outro estadunidense “Adaptação” me fez invejar o roteirista do filme, depois rir, e sorrir, e admirar e, por fim, terminei na inveja outra vez. De todos, se tivesse a babaca missão de escolher um só, escolheria “Transamérica”. Por que demorei tanto para ver Felicity Huffman como uma transexual que descobre que tem um filho? Prestes a fazer a sonhada cirurgia de mudança de sexo, ela tem que conviver com o garoto que, para piorar, se prostitui e tem algumas dificuldades sérias de relacionamento. Puta que pariu, vale só pela sinopse!

OUTRA VEZ, A POESIA
E outra vez, Arnaldo Antunes. Benditas frases do livro “Como é que chama o nome disso: antologia”. Ia usar este poema concreto no meu projeto experimental, com aquela imagem das três senhoras do Paraíso, mas achei mais adequado deixá-lo com menos subjetividade que as fotos já carregam.

Senhoras e senhores,
vão emboras,
por favores.

A fera
não tolera
sofredores.

OUTRA VEZ, P.S.
Esta imagem faz parte da coleção não-publicada do “Estaaçãoluz”. Vou colocando algumas aqui que eu queria ter encaixado, mas não deu. Foi tirada na Estação Trianon, que desemboca na Paulista.

Sexta-feira, Janeiro 11

Amor guardado no armário

Películas

Ontem vi “Carmen”, do Saura, Foi o primeiro filme que vi dele, me contaram que faz parte de uma trilogia sobre bastidores, uma coisa meio-bem metalingüística. Aliás, filme interessante que eu não ousaria recomendar para muitos, poucos são poucos os entendem as pós-modernidade do cinema que privilegia a forma e deixa o conteúdo em segundo plano. Aliás, pra mim a forma é o novo conteúdo.
Prova desses despreparo geral em relação a filmes, er, mais inteligentes, foi a exibição do filme “Corra, Lola, Corra”, numa sala com mais de 60 estudantes de jornalismo no ano passado. Pelo que a professora pôde contar, apenas um gostou (ou melhor, entendeu) o filme. Para bons entendedores (cada vez mais raros), a imagem basta.

Escrituras e fissuras

Ando viciado em escrever em espanhol. Ontem, enquanto discutia com um tio, comecei a falar em espanhol e ele me achou a pessoa mais arrogante del mundo. Pero hay ocasiones en las cuáles está muy difícil pensar en portugués (con la cabeza) y no con el corazón (que hace tiempo bate en español). Por eso, lo siento, pongo acá un texto que escribí ayer, después de llorar un poco por la arrogancia del destino:

Cuchillos

Hay cuchillo en toda parte
En la cocina, en la calle y dentro del pecho del hombre jóven

Los cuchillos de las cocinas son peligrosas porque pueden cortar
Los que están de las calles machucan
Pero los cuchillos de los pechos no me gustan mucho
Ellos pueden cortar
Machucar
Y, sobretodo, hacen llorar los ojos que ya están cansados de ver el corazón sufrir
De ver las oportunidades que vuelan en aviones de tres colores
De ver las siluetas de los danzarines que son estupendas, pero igualmente violentas
Y, madre, ellas son viscerales
Crean miedo y admiración en quién se queda por acá
A llorar y a sonreír
Con cuchillos en el pecho
Con lembranzas en corazón

Musiquichas
Demorou, mas virei fã de Chico Buarque. Ainda não sou do cantor, mas especialmente do compositor. Ganhei um cd da cantora portuguesa Eugénia Melo e Castro só com canções do CB (entitulado maravilhosamente de “DES CONS TRU Ç ÃO). Minha preferida é Bem Querer, que ela canta com salve-salve Adriana Calcanhotto e cujo melhor trecho penso ser:

Quando seu bem querer dormir
Tome conta que ele durma em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz, vedasse a porta e abrisse o gás


Mais visceral que isso só as vísceras do Chico Buarque mesmo.
Essa música foi misturada, no cd, com "Futuros Amantes" que a Eugénia e a Calcanhotto vão declamando fodidamente entre "Bem Querer" e cuja estrofe inicial se tornou um mantra para mim nesta madrugada descontruída:

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

Vai entender esse coração que não entende a si próprio.