Quinta-feira, Setembro 27
Quinta-feira, Setembro 20
Aliás, o contrário
Estou tudo ao contrário
às avessas
às cegas
às margens da margem
Escolhi esta freqüência no armário
depois que suas verdades relativas
desalimentaram
minhas mentiras reativas
que ficaram passadas
Aliás, ao contrário
Tudo isso que falei é ao contrário
Sou [estou] outras versões destes versos
No avesso do teu reflexo
eu estou, agora, indiferente de você
Espera!
Esquece! Mudei de novo
Acontece toda hora agora
Sou um outro diferente dos versos acima
Estou me reescrevendo
as páginas estão soltas,
é difícil,
mas estou me traduzindo
Ela perde o chão, ela não acha as palavras
Ela anda tão triste, ela anda pela sala
E eu
E eu, meu Deus?
Eu moraria em mim se soubesse onde é que eu fui parar
Eu me comeria aos poucos se soubesse em que me guardei
Virei poeta,
eu, que tentava ser rei
Preciso assumir essa nova identidade
Eu virei um novo novo
Um outro outro
algum alguém que vive às avessas
ao contrário de tudo
Às margens da margem
estou tentado me acostumar
Vou assumir minhas indiferenças
Vou tentando ser indiferente de você
indiferente a tudo o que eu assumi até aqui
das escolhas, das escolas, das esmolas que fiz
sigo aqui
sigo aqui tentando seguir aqui
Terça-feira, Setembro 18
QUASE CERTEZA
neste final de semana quase perdi todas as fotos feitas para meu tcc. problemas no computador (mais ou menos). graças a são raphael rocha - padroeiro dos jornalistas sem back-up -, isso não aconteceu. amém.
Terça-feira, Setembro 11
duas piadas internas
o mundo não entende a nossa graça
ficamos dois bobos de beijo curtos,
dois contentes de abraços longos
enquanto a maioria da cidade ainda dorme
– eles dormem uma noite mal dormida
é que eles só sabem fazer filho e comida –
nós nos afundamos um no outro para tentar se encontrar
outro dia você avisou que não estará por perto
viagem, avião, distância, família
não sei
mas como seria possível você se afastar
se eu já me transformei em você?
não sei
cada coisa criou um novo formato
cada formato um novo sabor
e o sabor perdeu-se na memória do presente
de um presente que se eterniza até que outro presente chegue
e ele chega
chega e recomeça a vida no seu abraço, no seu olhar
as pessoas comentam, tentam me decifrar
e depois comentam sobre nós
só nos resta rir de tudo, meu louco
somos loucos mesmo, somos doidos varridos para longe da normalidade burguesa
é que somos duas piadas internas
ninguém entende a nossa graça
Segunda-feira, Setembro 10
imagens adulteradas
imagem adulterada com ajuda do photoshop cs3 que, aliás, está perfeito! acima, roda de capoeira em campinas [sp] e, abaixo foto de dona laura, jovem senhora esportista durante etapa ituana da competição estadual de trekking. o preto-e-branco serve, nestes dois casos, para realçar a cor, como o suicídio serve para valorizar a vida e a perda, o ganho.
mico pirata sp
tranquero e eu estávamos em sp, neste feriado, fotografando a sé quando vimos camelôs vendendo "jogos mortais quatro". opa, como assim? os caras baixam da internet, vazou do estúdio do filme [que deve estrear nos eua e aqui no dia 26 out]. opa, comprei! quando coloquei o dvd pra rodar, era uma obra-prima chamada "o sr. rola monstro". digamos que o "pé" do protagonista era do tamanho da minha perna. no dvd de episódios dos simpsons havia um show de forró de um tal francis lopes e no da trilogia jogos mortais, um show da dupla rio negro e solimões. afora isso, foi um feriado prolongado muito útil, muitas fotos, visitas a sebos na região da sé, discos de vinil no largo são bento, arte pós-moderna no memorial e risotto de camarão na paulista . em um dos sebos finalmente achei um arnaldo antunes. depois coloco alguma coisa dele aqui. e peguei "feito eu", da elisa nazarian, que até agora é a melhor descoberta poética deste ano.
Quinta-feira, Setembro 6
metalinguagem

da série como tem gente estranha neste mundo.
Terça-feira, Setembro 4
sem muita opinião

Segunda-feira, Setembro 3
oito pistas para você perceber que mora sozinho

1. deitado no chão, só de cueca, lê o jornal de domingo. aliás, o aliás está todo fragmentado pela casa – ou kitnet, como era meu caso. no caderno cultura, a tirinha do calvin faz você gargalhar, mas não dá para mostrar para ninguém. você ri tanto que solta um peido. ninguém reclama. você ri mais ainda.
2. daí você resolve tomar um banho. mais tarde. lê um saramago, vê um pedaço do terça insana, cansa e vai procurar por uma cueca limpa. atenção: as cuecas limpas, nestas ocasiões, adoram brincar de esconde-esconde. são comumente abduzidas por seres invisíveis, provavelmente uma outra personalidade que se esconde em sua cabeça. não adianta chamar a mãe, que ela está longe, lá naquela casinha limpa e arrumada dela. quando acha (se é que acha), liga o som em um cd da calcanhotto (pode ser vander lee), vai se despindo pelo caminho, transformando armário e geladeira em cabides (no caso de estar com maus de uma peça, o que dificilmente ocorria comigo).
3. durante o banho, a porta fica aberta para que você ouça a música. e, meu, você mora sozinho: pode ouvir, cantar e dançar à vontade. se pintar um poema na cabeça, manda bala, declame para você mesmo na frente do espelho, de uma forma que outras pessoas achariam engraçado demais para não cagar-se de rir. o celular toca e você sai pingando, molhando desde o chão até o microondas. bosta, o aliás ficou molhado. no telefone, é aquele seu amigo de jundiaí a quem você não vê há tempos, vamos combinar uma cerveja, só se for agora, estou passando aí.
4. o amigo entra, ele não repara a bagunça porque também mora sozinho e, no caso dele, é mais grave: tem um cocker enorme, a casa fica duplamente bagunçada. vocês riem da vida e dos outros, as latas de cerveja vão se espalhando pela casa, o caderno aliás é um cadáver ali no meio daquela bagunça. Se o amigo em questão for, na verdade, aquele trio ituano, vocês se endoidam em uma partida nonsense de mímicas estranhas que faria, outra vez, um improvável espectador cagar-se.
5. a casa fica cheirando a cigarro, e você não fuma. há livros que você ainda nem tirou da embalagem, esculturas africanas que você não sabe quem deu, a cama está mais desarrumada que a calcinha da dercy gonçalves. a lagartixa mora atrás do ventilador, os mosquitos se escondem naqueles móveis que você nunca move e, se abusar, tem alguma barata no cesto de roupa suja. aliás, difícil é encontrar alguma peça de roupa limpa. você diz que é por isso que vai mais à missa.
6. embaixo da cama tem embalagem de comida japonesa, restos de pizza e outros jornais velhos. ali perto há fios soltos debaixo das capas dos discos de vinil que, por sua vez, estão sob aquela garrafinha de smirnoff que você acabou de beber.
7. nada segue um padrão. nem patrão. é uma casa anárquica, no melhor (e pior) sentido desta palavra. dentro do seu sapato mora um garfo limpo. atenção: para sua segurança, nunca se pergunte como ele foi parar ali, muito menos como é que ele ficou limpo. há uma ong que estuda a interferência de extra-terrestres na casa dos solteiros, mas os dados ainda são preliminares demais para se correr o risco de divulgá-los.
8. e por último, tem a questão da grana. se, nos tempos em que você morava com seus pais, seu nome nunca ficou complicado na praça, bem, aluguel, comida e transporte vão te ajudar a aprender a tirar (e colocar, claro) o nome do serviço de proteção ao crédito. calma, a gente sobrevive, vale mais a pena do que as penas.



