Sexta-feira, Março 30

O mundo vai acabar!

“solidão é passar mais de duas horas sem apagar um spam”

Minha mãe vivia dizendo “meu filho, estude, se não qualquer dia desses você está escrevendo para um blog...”.
Eis aqui meu erro publicado. Agora vivo dependente virtual dessa tal internet. Não se passa um dia – um diazinho se quer – em que eu não acesse a rede, não veja meus e-mails, não me informe pelo UOL... Nesse mundo, o conceito de solidão é passar mais de duas horas sem apagar um spam.
É claro que eu sei que a humanidade está no fim, que daqui alguns dias uma guerra explode aí, falta só uns iranianos seqüestrarem uns marinheiros britânicos (ops, não falta mais nada) e daí todo começa outra vez. Minha avó Lourdes dizia que no futuro tudo será como no passado. E eu concordo. Acho que a Terceira Gerra Mundial está em gestação em cada atitude preconceituosa da nossa sociedade e logo tudo acabará. E-mails, spans, computadores, pop-ups... o grande desafio será encontrar um lugar sem radiação ou sem pessoas mutiladas. Até posso ver as criancinhas chorando: “mãe, posso ficar com esse cachorrinho de duas cabeças que não tem uma perna?”. Isto é, para as criancinhas que chegarem a conhecer suas mães, porque o futuro do mundo está na clonagem.
A Veja e o Lula. Deus o demônio. O papa e os gays. O Corinthians e o Palmeiras. A Globo e a Record. O Bush e o Fidel. García Marquez e Vargas Llosa. Felipe Fonseca e a Naomi Campbell. Todos que são oposição estarão na mesma terra sem lei, onde carne humana e sangue de cachorro farão parte do cardápio.
Daí os blogs não terão mais utilidades. Porque nesse mundo próximo, ninguém vai poder dar sua opinião, um ditador vai comandar os sobreviventes e matar os que ousarem pensar em liberdade.
Enquanto esse mundo novo-velho não vem, vamos aproveitar para falar muita besteira e mal dos outros.
(*Imagem roubada do site malvados.com.br)

Quinta-feira, Março 29

ENTREVISTA FONSEQÜENSE N° 002

Márcia Rosa e sua idéia de jornalismo cultural

Ela é professora de jornalismo na Faculdade Prudente de Moraes, em Itu (SP). É Mestre pela Universidade de São Paulo e defendeu há alguns meses sua tese de Doutorado pela mesma universidade. No estudo ela pesquisou como o termo cultura tem sido limitado pela imprensa brasileira, que trabalham apenas as obras de arte (filmes, livros, peças etc.) e se esquecem do contexto. Márcia Rosa analisou a Revista Realidade (que ainda causa saudade até naqueles profissionais que não trabalharam lá) para mostrar como o jornalismo cultural deve (ou pode) ser feito com mais competência. Ela respondeu a algumas perguntas fonseqüenses. Confira abaixo.

1) Você fez uma viagem entre outubro de 2006 e fevereiro de 2007 pela Europa. Qual o objetivo principal: estudar, trabalhar ou passear?
Márcia Rosa: Foi um tempo para observar o ser humano em outras culturas. O estudo, a pesquisa e o trabalho continuaram comigo nestes meses, mas não como prioridades.
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2) Você defendeu sua tese de doutorado em jornalismo e trabalhou com o significado de cultura, muitas vezes limitado dentro dos veículos de comunicação. A que conclusão chegou e como foi a defesa?
Márcia: Estudei a abordagem da cultura realizada pela imprensa a partir da revista Realidade, uma publicação das décadas de 60 e 70. Através de leituras de exemplares da Realidade, foi possível notar que as reportagens exercem uma visão ampliada dos acontecimentos culturais, entendendo que a cultura deva ser abordada em todas suas interfaces, mesmo que conflitantes, resistindo a estagnação proposta por regras padronizadas. Nas abordagens estudadas, estão presentes as questões da identidade cultural, dos conflitos gerados pela indústria cultural e as transformações sociais.

3) O que poderia ser feito para que o jornalismo trabalhasse melhor a cultura nas informações?
Márcia: A imprensa, ao abordar temas culturais no seu histórico de jornalismo cultural tem demonstrado grande superficialidade, com exceção de alguns movimentos particularizados que apresentam um enfoque diferenciado e pluralizado para a cultura. Evitar os grandes agendões culturais e as pautas centradas nos acontecimentos das artes é um caminho para um jornalismo alternativo, menos fragmentado.

4) A abordagem de todo um contexto cultural exigiria muitas páginas ou revistas como Época, Veja e IstoÉ conseguem também?
Márcia: A contextualização não deve ser sinônimo de matérias extensas. A reportagem pode apresentar um olhar diferenciado para a sociedade e abordar os fatos de forma mais completa sem tomar muito espaço de uma edição. O que precisa é de profissionais capacitados e de uma linha editorial com esse propósito. As revistas atuais de informação geral não buscam contextualizar a cultura de uma forma pluralizada, têm uma segmentação bastante segmentada e padronizada. Estas publicações são resultados do universo que vivemos hoje. Acredito que esta outra forma de abordar a cultura da qual trato deva apenas coexistir com os outros modelos.
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5) Quais veículos são essas exceções, ou seja, evitam os grandes eventos culturais ou, pelo menos, alcançam o equilíbrio entre o que você chamou de "agendões" e os eventos mais alternativos?
Márcia: As publicações que prezam por observar a cultura não apenas como as artes e espetáculos, mas também como as manifestações transformadoras da sociedade. Alguns veículos no Brasil estão dando espaço para esta leitura, como o jornal O Estado de S. Paulo no caderno Aliás e outros. Na tese, mostro um estudo sobre a revista Trip que também apresenta pautas que refletem a sociedade de conflitos culturais na qual vivemos.

6) No Brasil, quando se fala em jornalismo cultural, logo vem à cabeça o nome da Revista BRAVO!. O que você pensa dela?
Márcia: A revista Bravo publica um material de qualidade na cobertura das artes no Brasil. A equipe é formada por especialistas que realizam boas análises. O resultado é interessante dentro do princípio editorial da revista, mas é um exemplo de cobertura segmentada e fragmentada da cultura.

7) Considerando as obras-de-arte pautadas nos veículos de comunicação brasileiros, como você faria o "ranking", do mais freqüente ao mais esquecido: literatura, cinema, teatro, artes plásticas e música?
Márcia: A cobertura das artes é abordada de acordo com o público dos respectivos veículos, e é esse o foco que determina a pauta que terá mais interesse. Existem publicações voltadas para literatura, cinema, etc. O que proponho na tese é justamente uma outra forma de olhar para a cultura, não voltada somente para as principais artes.

8) Quais jornalistas envolvidos com a cultura que se destacam? Por quê?
Márcia: Já citei a revista Trip. Tem uma proposta desprendida dos padrões comuns encontradas na maioria das publicações. Precisamos pensar que no Brasil existem jornais e revistas que dão espaços para uma leitura diferenciada na abordagem da pauta de cultura. A pluralidade e a contextualização dos temas podem estar refletidos em pequenos espaços e não necessariamente na proposta geral de uma revista ou jornal.

Terça-feira, Março 27

Coisas para um Bauer resolver

"Alô, Multishow? Aqui é o Jack Bauer. Eu sei onde você mora..."

Nessas duas semanas vivi uma das situações mais curiosas como assessor de imprensa. Um cliente da agência, fabricante de trator, teve um produto exibido pelo programa Sexytime, do Multishow. Acontece que o dono dessa empresa viu, assim, por acaso, o vídeo no qual uma “senhora retirava as roupas sobre um das nossas máquinas”. Ou seja, a tia ficava peladinha num trator deles. Alguém tinha de ligar no Multishow e descobrir o responsável. Advinha quem ficou encarregado. Errou quem falou Jack Bauer e acertou quem respondeu Felipe Fonseca.
Nesse tipo de programa o pessoal deve estar acostumado com processos, reclamações e afins. Depois que contei toda a história para a moça da produtora, que eu não tinha a data exata da exibição, só sabia que tinha sido perto do carnaval, ela me diz: “Você pode mandar tudo isso por e-mail, por favor?”. Claro. “É que vou rodar aqui na produtora para ver quem acha o vídeo!”.
E agora está difícil dormir. Eu fico imaginando meu e-mail pitoresco chegando e sendo reenviados das caixas de e-mail da produtora carioca. “E ae, Jorge, você viu o e-mail do carinha lá de São Paulo? Mó engraçado”. É o tipo de coisa que vira piada. Lenda. Case.
E, depois de tanto esforço para encontrar o tal vídeo, chega uma nova ordem do dono. Ele não quer que o vídeo seja retirado do ar, apenas deseja fazer uma clipagem e guardar uma cópia do show da “senhora que fica nua”.
Eu mereço.

Quarta-feira, Março 21

Carne nova

Nessas últimas semanas, dois grandes amigos inauguraram um blog. Segue link abaixo, tirem suas próprias conclusões (o nome deles na minha lista de links demonstra o que achei):

Devaneios de Soraia
devaneiosdesoraia.blogspot.com

Um pouco mais
vodkacomleite.blogspot.com

Urbano demais

"Antes eu não tivesse sido"

Projeto Experimental. Apresentação de trabalho. Release. Floow-up. Entrevista. Concurso. Prova. Horário de ônibus. Fichamento de livro. Concorrência. Falsidade. Traição. Insegurança. Exclusão. Horário de almoço. Caminhada até a faculdade. Unha encravada. Chuveiro queimado (água fria). Relatório com a história da fotografia. Metas. Vírus no computador. Dor-de-cabeça. Ligação do pai. Da mãe. Amiga depressiva no MSN. Download. Decupagem. Filmagem. Moedas. Toque do celular. Despertador. Vizinho pagodeiro. Buzina de carros. Spam. Atualização de mailing list. Salário insuficiente. Exigência. Bronca. Prazo. Jantar. Lanche. Coisas para comprar. Datas comemorativas. Distância. Saudades. Solidão. Cobrança. Atraso. Dor-de-barriga. Regras da ABNT. Inimigos. Falsos amigos. Sexo com camisinha. Vizinhos de cima dançarinos de sapateado. Notas de R$ 1. Lixo. Cueca suja, roupa sem passar, meia sem lavar, tênis velho. Daltonismo. Problema na vista. Desconfiança. Perda. Raiva. Inveja. Quero sair do Brasil. Fotografia colorida. Gente rica. Cantadas de travestis. Preconceito. Julgamento. Deputados. Lost terceira temporada. Os outros. O Papa no Brasil. Chamada não atendida. Mensagem da Vivo. Big Brother Brasil 7. Namorado da minha amiga com ciúmes. CD riscado. Programa protegido contra pirataria. Debates políticos (entenda: discursos políticos). Miojo. Microondas. Espelho.

Preciso aprender a tocar saxofone.
Ando muito estressado.
Ainda vou fazer alguém engolir meu mouse.

Terça-feira, Março 20

Aqui, Naomi é Cristo!

"Lavo, passo e faço comida. Não troco fralda de neném com menos de 18 anos"


Todo mundo tem alguém para Cristo. Não tanto como salvador, mas alguém para crucificar. O Cristo deste blog é Naomi Campbell. Segundo a Folha Online, a britânica agradou em seu primeiro dia como faxineira. Todo mundo sabe: ela foi condenada a prestar serviços comunitários por atirar o celular em sua empregada doméstica (porque a senhora não achou uma calça que a top queria, ave!). E dizem que era um pré-pago e estava sem crédito! Tsc-tsc. Essas modelos, uma morrendo de anorexia, outra catando jogador de futebol e outra tacando celular na Dona Maria.
A Folha cita o The Sun e eu cito a Folha: Naomi “parece não ter mostrado nenhum ataque de 'diva' enquanto fazia o trabalho”. Também, pudera. Imagina a modelo entrando e uma voz onipresente: “Naomi porta uma vassoura de cabo de aço inox, um par de borracha Gucci e veste um Versace vermelho com ótimo caimento”.
Ela entra com a vassoura, se abaixa para ligar o aspirador de pó (sim, modelo usa vassoura com aspirador de pó, até ontem ela achava que aquela máquinona era para fazer café!), mostra a calcinha e sai majestosamente desfilando.
Eu teria sido mais sarcástico e colocado pra tocar a Dança da Vassoura: “vai pra esquerda, vai pra direita, levante a poeira que essa dança é porreta”.
Alguém aí tem o celular, ops, o telefone da casa da Naomi? É que lá em casa faz tempo que não faço uma faxinazinha, daí pensei que... ah, mas não vai dar, ela está ocupada demais limpando um prédio administrativo em New York City.

Nome:
Naomi Campbell

Codinome:
Dona Maria, Dona Eva ou Dona Zuleica

Profissão:
Já fui modelo, desfilei em todos os cantos do mundo, mas hoje ganho a vida como diarista.

Segunda-feira, Março 19

O celular-voador da Naomi Campbell

"Meu cabelo é black-power e faço faxina por R$ 50 a diária"
Essa é boa. A Naomi Campbell, aquela linda modelo condenada a prestar serviços comunitários por atirar o celular contra sua empregada doméstica, disse que vai leiloar as botas e o jeans usados durante a faxina que faz em um prédio administrativo em New York. Já até escolheu uma instituição para receber o blá-blá-blá.
Bem, eu gostaria de sugerir outras instituiçãos para serem agraciadas com o dinheiro do leilão, que, se conheço a sociedade fútil em que vivemos, deve chegar a milhões (meu Deus, quem pagaria pelas botas da Naomi Campbell? Nem pela calcinha de diamantes da Gisele Bünchen!). São as minhas sugestões:

- Associação das Domésticas Atacadas Com Celular de Modelo Famosa;
- Fundação Pensa que Pode Tudo Só Porque tem Grana;
- ONG Doméstica Não Carrega Bateria de Celular
- FJMPA – Fundação Joga a Mãe De Perna Aberta
- ONG Domésticas Não Leva Desaforo-Celular Pra Casa
- Campanha de Incentivo a Compra do iPhone (porque iPhonada na cabeça dói menos que celularada, né?);
Depois me livre, acho que o ideal é todo mundo seguir a "Cartillha Sexual de la Iglesia Universal de lo Reino de Dios". É desevolução demais!

Desevolução: assim caminha a humanidade


O termo do título não existe. Nem no Word, no Aurélio ou na língua portuguesa. Mas não encontro outra forma de definir que não com esse neologismo a cartilha sobre sexo criada pela Igreja Universal. Com todo respeito pelas pessoas que freqüentam essa decadente instituição (mesmo porque, há muitos induzidos, manipulados em um momento de dor etc.), eu penso que esse tipo de pensamento é um dos mais absurdais atrasos do pensamento humano. Nem Deus acredita (aliás, se Ele existe, imagino que esteja rindo dessa cartilha tanto quanto nós).
Além de proibir tudo quanto é natural no sexo (oral, anal, de olhos abertos olhando para o norte), a cartilha consegue a proeza de se igualar ao Papa Bento XVI quando chama os homossexuais de “criaturas infelizes”. Mas o pior é o final quando, entre outras belíssimas recomendações, a cartilha orienta o fiel a se martirizar com vara de bambu. Haja bambu no mundo, hein, irmãos!
Para quem ainda não deve o prazer quase sexual de ler a tal cartilha (rol de besteiras), creiam que os trechos abaixo são suficientes para você saber o que não freqüentar nesse mundo, além de shoppings e uma usina nuclear:

Cartilha da Igreja Universal do Reino de Deus sobre o Sexo

Posição de quatro
É uma das posições mais humilhantes para a mulher, pois ela fica prostrada como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a penetra. Animais são seres que não possuem espírito, então o homem que faz o cachorrinho com sua parceira, fica com sua alma amaldiçoada e fétida.

Sexo Oral
O prazer de levar um órgão sexual a boca é condenado pelas leis divinas. A boca foi feita para falar e ingerir alimentos e a língua para apreciar os sabores. A mulher engolindo o sêmen não vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores musculares na língua ao sugar a vagina de sua parceira.

Sexo Anal (Sodomia)
O ânus é sujo, fétido e possui em suas paredes milhões de bactérias. É o esgoto propriamente dito. No esgoto só existe ratos, baratas e mendigos. A pessoa que sodomisa ou é sodomisada se iguala a um rato pestilento. Seu espírito permanece imundo e amaldiçoado. Mas o pior é quando o ato é homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura já está carimbado nos confins do inferno.

Posição Recomendada
O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do seu parceiro para iniciar a penetração. O homem após penetrar a mulher não deve encostar seu peito nos seios dela, deve manter uma distância pois a fêmea deve estar rezando aos santos para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem rezar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência, o açoite com vara de bambu é aceito como forma de purificação.

Sábado, Março 17

Um paradoxal daltonismo

Acabei de ler o primeiro capítulo de “Um antropólogo em Marte – Sete histórias paradoxais” (Companhia das Letras, 1995, 330 páginas) do neurologista Oliver Sacks. No momento é a única parte do livro que me interessa. É a história real de um pintor que, depois de misterioso acidente de carro (misterioso porque ele não se lembra de nada, apesar de ter feito Boletim de Ocorrência) se torna, pasmei, daltônico. Me chamou atenção primeiro porque não sabia que era possível se tornar daltônico, sempre achei que fosse uma doença apenas hereditária (quem tem, tem; quem não tem, se fu). Na verdade, nesse caso é melhor utilizar o termo médico: acromatopsia (dificuldade de distinguir cores), pois daltonismo para mim é uma coisa meio de pai para filho, ou melhor: de avô para neto.
A doença não seria nenhum agravante se o senhor I. não tivesse o que no livro se chama de daltonismo total. Ou seja: não distinguia cor alguma, via tudo em preto-e-branco, meio acinzentado, um ovomaltine do Bob’s. E não seria tão ruim assim se ele não tivesse a pior profissão que um daltônico pode sonhar em ter: (não, ele não queria ser piloto de avião como o Dwayne de “Pequena Miss Sunshine”) era um pintor de sucesso. Acostumado a criar com cores, o senhor I. percebeu que só poderia pintar em preto-e-branco e, como teve de prestar mais atenção no contorno dos objetos e pessoas, percebeu que poderia criar esculturas com facilidades.
O livro todo segue nessa linha de mostrar o paradoxo das doenças, o caráter “criativo” que elas escondem, pois podam uma área do ser humano e o obrigam a pensar em outras formas de agir no mundo, de se expressar, de influenciar as pessoas.
Oliver Sacks conta casos de outras seis pessoas com doenças variadas como autismo e cegueira. Mas a do pintor daltônico me fez imaginar como eu encararia a vida menos colorida do que já encaro: ou seja, ao invés de confundir azul escuro com roxo, verde escuro com marrom, se eu enxergasse tudo cinza. Deve ser como a música que a Adriana Calcanhotto fez baseada no primeiro livro de poesia do Manuel Bandeira, no qual é muito forte o tema da morte:

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara quando vem o seu cheiro
Dentro de um livro, dentro da noite veloz
(na cinza das horas)


Penso, então, que foi melhor nascer do que me tornar um daltônico. Embora isso me forçaria a pensar em alternativas para me comunicar com o mundo (caso eu e o mundo queiramos nos comunicar), creio que daltonismo adquirido deve dar aquela sensação de perda, de acinzamento da vida (literalmente. Perdoem pelo trocadilho infame).
Para quem não resiste a um paradoxo (como eu), esse livro é uma solução. Uma cura, talvez. Ou um agravante.

Sexta-feira, Março 16

Esse ano chato (como todos os outros)

Começou com o reveillon
Posse do presidente
Nova edição do Big Brother Brasil
O carnaval deste ano promete
Big Brother elimina não-sei-quem, que agora vai pousar peladão
Papa no Brasil
Papa condena os gays. De novo. De novo. E de novo.
Pan no Brasil: governo gasta tantos milhões
Pane nos aviões: Osama Bin Laden diz que não tem culpa.
Férias: onde ir
Volta às aulas: o que comprar
7 de setembro: Lula diz que ser analfabeto e pobre é bom, veja o caso dele
8 de setembro: Lula diz que não disse nada do que disse, a imprensa é foda, meu!
9 de setembro: Lula põe a culpa no FHC, “aquele estudioso-elite-perseguidora”
Novembro: Felipe faz aniversário
Tudo novo de novo. A mesma coisa, só que agora com 23 anos.
Compras de natal, de onde vem o Papai-noel, Promoção Casas Bahia
Menino é atacado por pitbull e se salva por milagre.
Esperança. Fé. Vou votar no Lula se ele se candidatar.
EXTRA: Deus vive, tentou me vender um carnê do Baú hoje cedo!
Propriedade de Jesus. Lotes a partir de R$ 300,00 mensais.
Universal: dízimo com 10% de desconto se entregue em malas pretas ou na cueca
Bispos da Renascer são soltos. Guardem seu dinheiro!
Romário faz gol mil. Placar diz que nã-nã-nã-nã-não, são 994.
Pelé diz que seleção está defasada e orgulhosa.
A nova roupa do Dunga.
Xuxa abre as portas de sua casa para Caras.
Clodovil cata deputado em pleno plenário.
Veja denuncia corrupção no governo. Diogo Mainardi processado. Lya Luft é um pé no saco!
Quem casou, quem separou, sabia que a filha-da-prima-da-vizinha-da-minha-mãe engravidou? Quinze anos e não sabe de quem é. Dizem que pode ser do seu pai.
Férias. Acaba a faculdade! Projeto Experimental. “Valeu a pena todo esforço, Deus escreve certo por linhas tortas, pau que nasce torto nunca se endireita, se continuar nesse ritmo eu gozo sem as mãos”, blá-blá-blá.
Seremos sempre amigos, até o dia que eu te encontrar na rua e você não lembrar mais meu nome.
Os maconheiros vão virar moralistas. Os moralistas vão virar padres. E os padres vão virar inspetores da creche Michael Jackson.
Por falar nele, nova plástica! Parece doente. Está doente. Ainda não morreu?
Spice Girls anunciam show em favor das criancinhas canhotas do Afeganistão.
Ginger Spice diz que não canta com roupa. E quer raspar a cabeça como a coleguinha Britney Spears.
Lost anuncia que quarta temporada será a última. Talvez.
Kiefer Sutherland renova contrato para mais duas temporadas de 24 Horas.
Heroes cai em audiência e loirinha gostosa começa a tirar a roupa no seriado.
E o Papa ainda pegando no pé dos gays. Oficialmente no pé, gente, sem maldades.
A nova edição do Big Brother. Ave-Maria, de novo?
Acharam o corpo do Ulisses Guimarães.
Ana Maria Braga é flagrada em novo romance.
Brasil está fora da nova edição do Oscar.
Zezé di Camargo e Luciano anunciam novo filme.
Todo mundo em Pânico 14 lidera bilheteria.

Eu quero outro mundo.

Este texto é o post número 100 daqui. Grite comigo: "e daí?"

Quinta-feira, Março 15

Essa é a Taís, travesti de Itu que entrevistamos para um trabalho da faculdade. Gente fina, muito viajada e bem siliconada. Já morou na França, casou com um italiano por cinco anos (“Cansei, né? Um monte de bofe atrás de mim e eu não podia fazer nada!”) e conheceu um monte de africano na Europa (“Gente, como tem africano na França! Não é preconceito, não, mas a gente vai lá pensando que só tem lourão, né?”). Foi do Brasil para a Itália e, um dia, cansou do marido e foi pra França. Chegando conheceu um rapaz de 21 anos. Ele comprou um pacote de chiclete para ela. (“Pensei: 'já fui mais bem tratada', meu marido me levava para restaurantes e tal, e eu ali, com aquele menino francês”).

Sexta-feira, Março 2

Sem lengas

Seguem algumas imagens que fiz dias atrás. Falta postar as fotos do carnaval de rua daqui de Itu. Sem muito texto porque estou sem muito tempo. O que me sobrará hoje – se tudo ocorrer conforme o planejado – pretendo utilizar para colocar algo no esquecido www.itu.com.br/felipefonseca (sim, agora as crônicas fonseqüênses podem ser acessadas diretamente por esse link). Saudades da Valéria, agora moradora de Avaré.