Sábado, Março 3

Meryl Streep, sua linda



da série "festa estranha com gente esquisita".

eu sei, eu sei, não existe assunto tão domingo passado quanto o Oscar 2012, mas queria deixar duas ou três palavrinhas sobre o assunto mentira, corre logo, serão muitas palavras. foi, talvez, a cerimônia mais nhé da história, não serve para nada enquanto espetáculo [e se o Oscar não é espetáculo, para que serve, então?]. mas, se a festa não festou, pelo menos a seleção de filmes deste ano estava muito, mas muito mega fucker. consegui ver quase todos os indicados que me chamaram a atenção e, vamos ser francos, o Oscar de melhor para O artista foi a coisa mais justa desde que Framboesa de Ouro para o filme das Spice Girls [Spice, 1bjodofê].

eu, como muita gente [oi?!], estava esperando mesmo a entrega da estatuetinha [sic!] de melhor atriz e, se você viu A dama de ferro sabe que ninguém mais poderia levar além de Meryl Streep. e aquele discurso?! chorei. Meryl Streep, se você estiver lendo este blog, saiba, eu te amo, sua linda. estava assistindo com amigos e, conforme tinha prometido, quando ela foi anunciada, dancei a Macarena.

o lamentável, como nos anos anteriores, é a exibição da Globo: sempre começa na metade do Oscar. e por quê? por conta do Big Brother Brasil. graças a Darwin [que tem cada vez mais dúvidas de sua teoria sobre uma possível e improvável evolução das espécies], esta edição está no fim e as pessoas vão voltar a se dedicar a outros temas e atividades como se despedir de forma decente de alguma pessoa querida ou ficar de pé para cima vendo as estrelas à beira da represa em uma fazenda pirajuense [com ou sem BBB, fiz isso no carvnaval, fica a dica]. vi o começo na TNT e depois pulei para a Globo porque gosto muito do Wilker e da Beltrão.

uma sugestão para 2013 é que, pegando a onda de abrasileiramento do planeta, a entrega das estatuetinhas seja por aqui, de repente no Pacamebu com as torcidas do Corinthinas e do Palmeiras fazendo oooooooola quando a Meryl Streep ganhar de novo o Oscar de melhor atriz [gente, isso ela já mostrou que faz bem, quero ver se ela consegue levar o Oscar de melhor ator].

por motivos de saco cheio inadequação, não comentaremos a magreza da Angelina Jolie, a idade-que-chega-para-todo-mundo do Michael Douglas e o vestido mais lindo do Oscar [que ainda é aguardado].

Sexta-feira, Fevereiro 24

o homem entrou na farmácia e pediu sete quilos de Viagra


da série “grandes encontros familiares que me dão câimbra bucomaxilar”.

passei o carnaval na fazenda. estava com muitas saudades dos meus pais e dos meus cachorros. minha irmã e eu levamos alguns amigos para um verdadeiro retiro rural. e, entre churrascos e cervejas, rimos muito, especialmente por conta das piadas sujas e pesadas que um primo contava. acho que contou em torno de cinquenta, ao lado de meu querido Edson e um outro que estava lá.

bom, o que realmente gosto das piadas, além obviamente do final não-óbvio que elas têm de ter, é do início, quase sempre bizarro. “havia um homem que resolveu dar meia hora de bunda”, “o cumpadre queria saber o que era gonorreia”, “a mulher chegou na farmácia em cima de um camelo vesgo”, “a freira veio da Itália em um barco cheio de portugueses mudos”... e por aí vai.

claro, contei as únicas três piadas que sei, incluindo uma bonitinha do padre brasileiro que é transferido para um vilarejo na divisa com a Argentina e é proibido pelo prefeito de falar mal de los hermanos na homilia, um costume que ele tinha e que irritava os argentinos presentes. em um sermão da sexta-feira santa, porém, o padre contou que Jesus, naquele tempo, disse aos seus brothers que estavam à mesa “Um de vocês vai me trair”. Pedro se levantou e perguntou “Meu mestre, por acaso sou eu?” e J.C. disse “Não, Pedro, não és tu”, e João se levantou e perguntou “Meu mestre, por acaso sou eu?” e J.C. disse “Não, João, não é você”, e Judas Iscariotes teve de perguntar “Mi maestro, por acaso soy yo?”.

todos riram, mas a piada não era inédita para ninguém ali. estavam era com saudades de mim. e eu, deles. as outras duas piadas não são contáveis. não assim, de graça.

tem dança quando diz que não me chegas

da série "a música brasileira vai indo bem, gracias por preguntarmelo".

antes de mais nada, Filipe Catto, eu te amo, meu querido! não paro de ouvir as músicas do álbum Saga, acho que tudo começou ano passado, mas na viagem pelo Uruguay e pela Argentina, chorava muito arrepiado com frases como "tem samba no meu quarto a noite inteira, especialmente quanto tu te vais" ou "na madrugada tem perfume e vela pra atrair alguém que vem e traz alguma coisa que em ti me falta". acho que as comparações com o Ney Matogrosso são compreensíveis, mas muito mais no sentido de referência do que medição. a mim, que sou calcanhottiano, sua voz em Roupa do corpo [aliás, amo demais!] me lembra a Adriana Calcanhotto no começo da carreira cantando Carmen Miranda. mas é impressão, nada que limite.

Cá Ponte do Rio, em sampa tem musga boa pra carái, vê só.

quem quiser conhecer mais, dá para baixar músicas aqui. eu vou ali comprar o Adoração que tem muita música dele que ainda não conheço!

Quinta-feira, Fevereiro 23

a vida é assim, de repente, porque você tropeça numa lembrança gostosa



da série "não, este título não tem nada de autoajuda".

era uma vez o gUi Mohallem e eu no Ponto Chic da Barra Funda [nunca será para mim Ponto Chic Perdizes... blé!]. a gente se via muito naquela época, a vida era boa dimais da conta, uai. nossa, saudade é trem bão que a gente toma assim de sopetão. eu, no famoso e autêntico Bauru e ele, no stronoff de frango. de repente, ele saca sua Nikon poderosa que tinha ido com ele lá pros States [tinha mês?] e faz uma fota que eu nunca, neva!, até o presente minuto, tinha visto na vida. achava fácil que tinha deletado, que de modelo feio não brota fota munita, mesmo com fotógrafo dos bão.

gUi, meu querido, me re emocionei ao me ver na sua lente. era 2009? juro que nem detava mais, apenas era uma vaga desconfiança da inexistência desta foto - exceto como tentativa de me humilhar em público, que naquela safra eu era tímido. tímido, mais magro e nem imaginava que tudo o que ia vir depois seria bão tamém.

muchas gracias, menino.

Quarta-feira, Fevereiro 15

sobre como eu adoro coincidências e às vezes tenho medo delas



eu amo Cecilia Roth. isto é fato. desde que a vi estrelando Tudo sobre minha mãe, tentei ficar de olho no que ela faz ou deixa de fazer. adoro o personagem Marina que ela faz em Epitáfios, acho sua participação a cereja do bolo em Kamchatka [com Ricardo Darín, que eu amo também]. por isso, me emocionei quando vi um cartaz imenso na Avenida Corrientes, centro de Buenos Aires, dizendo apenas teaser: Proximamente, Cecilia Roth y Julio Chávez en un espetáculo de Edward Albee.

bom, calma.

Cecilia Roth a gente sabe quem é: atriz argentina que contracena com Julio Chávez [ator argentino] na série Epitáfios, da HBO. Edward Albee é um dramaturgo estadunidense dos mais fuck respeitados around the world. aqui no Brésil, acho que a peça The goat or Who is Sylvia? foi adaptada pelo José Wilker, tudo super elogiado e tal.

bom, calma.

a fofoca do momento é que Cecilia Roth abandonou os ensaios da tal peça, deixando o colega/amigo Julio Chávez [com quem também estrelou Tratame bien, um seriado argentino] mega chateado. o motivo do abandono [ai, calma]: ela foi pra Espanha filmar o novo do Almodóvar.

oi?! bom, agora é ter calma mesmo. e esperar.

a coincidência do título deste post é o seguinte: comprei um dvd de um filme antigo com a Cecilia Roth chamado Una noche con Sabrina Love. o filme é muito bom, divertido, emocionante, com uma sinopse bonitinha: garoto virgem do interior ganha concurso para passar uma noite com a estrela pornô Sabrina Love. ele tem de ir para a capital, muita aventura, gente louca, descobertas etc. veja lá depois.

ocorre que estou lendo El imitador de dios, o livro que levou o Prêmio Clarín de literatura de 2011. abro na orelha do livro e descubro que o livro ganhador de 1993 foi... sorpresa!... Una noche com Sabrina Love.

bom, era isso. nada de engraçado, mas tem Cecilia Roth no próximo Almodóvar.

bom, calma.

PS.: vi também La mujer de niegro, um filme de terror para dar risada. se não fosse o exagero, seria assistível. coloco aqui no rodapé porque não merece um post.

Sexta-feira, Fevereiro 10

Si no puedo bailar, por lo menos miraré ellos que bailan como si no hubiera vida afuera del tango

da série "caminhando e dançando e sentindo a pressão".

você só dizer que esteve em Buenos Aires se foi a uma milonga. não me refiro a estas apresentações feitas para turistas onde você paga cem dólares, come mais que sulafricano em dia de visita da ONU e depois vai para casa com a sensação de que foi-até-que-legal-mas-poderia-ter-visto-isso-na-minha-cidade. eu me refiro às casas de shows de argentinos para argentinos, onde tem apenas um ou dois turistas por noite.

nesta quarta-feira, eu era este "um ou dois turistas". funciona assim: todas as mesas e cadeiras são colocadas em forma de um grande círculo, todas mirando o centro do salão. as mulheres ocupam as cadeiras da primeira fila [como se fossem a primeira onda de um mapa de públicos, o que de fato ocorre] e os homens ficam nas cadeiras atrás observando quem eles vão chamar para dançar. parece meio caça e caçador, mas sem a certeza de qual papel cada parte desempenha.

uma mulher não recusa um convite para um tango. isto me pareceu ser uma regra, mais do que una costumbre. os homens podem chamar qualquer uma, casada, lésbica, vesga, jovem, destra, peluda... não importa nada além do tango. e, como mulher não convida homem para bailar e homem não convida outro homem [não naquela milonga], eu dancei. aliás, não dancei. e há uma explicação óbvia para eu não ter chamado nenhuma para o centro do salão: eu só sei dançar com você!

bueno, fiquei fazendo a linha turista brasileiro, só observando e chorando muito com aquelas músicas de Gardel, Piazzola e companhia. que lindo!

o engraçado é que ninguém bate palma quando termina uma rodada de música. ah, as rodadas. são um capítulo à parte. são formadas por uma sequência de quatro canções e os pares são os mesmos a sequência toda. como não são casais, o homem e a mulher ficam conversando super quando termina uma música e demoram uns segundinhos para começar a próxima. nestes intervalinhos, eu fiquei imaginando alguns diálogos retardados como:

"nossa, tá quente aqui, não?"
"ai, nem fale. semana passada minha esposa veio com uma caixa de ovos na bolsa e nós saímos daqui com um monte de pintos!"

"não era você uma mulher que estava aqui na frente, na Callao, mais cedo, de vestido azul?"
"não, senhor, mais cedo eu era um moreno de barba que estava ali na esquina com a Corrientes."

"interessante este tango que acabou de tocar, não acha?"
"tango?! gente, e eu jurando que este tinha sido um samba!"

e por aí foi.

achei bonito super um senhor muito muito muito muito idoso dançando com uma jovem que deveria ter seus trinta anos [aliás, que se registre isso: as argentinas são remaravillosas!]. o pobrezinho era tão velho que, quando ele era jovem, o Mar Morto ainda estava doente. ou melhor: ele era tão velho que quando ia ao médico fazer check-out, o doutor acaba se confundindo e fazendo autópsia. ou ainda: ele era tão velho que a certidão de nascimento dele tinha sido encontrada esculpida nas paredes de uma caverna da Patagônia. enfim, deu para entender.

certamente que ali não se toca Bajofondo, que é moderno super para um ambiente assim. mas aproveito a ocasião [gracías por la oportunidad] para colar aqui uma das músicas desta banda que eu ouço muito durante minhas caminhadas por Buenos Aires.

Quarta-feira, Fevereiro 8

para que todos saibam que Felipe Fonseca [ainda] não morreu, mas já não se pode mais dizer onde ele está agora


da série "eita, que título grande".

às vezes a vida se apresenta na forma de um clichê irresistível. uma esquina da Avenida Corrientes, em Buenos Aires, Argentina, América do Sul, debaixo de muita chuva [la más grande el mundo o, quizá, su hija], a barba pingando, pisco os olhos rapidamente, sorrio de canto esquerdo, os carros buzinando contra as motos, havia outras pessoas ali?, o chão tremendo por conta do metrô velho, impossível não pensar na foto do Robert Doisneau, improvável viver de forma decente, difícil não pular pequeños pocitos creados por la lluvia.

estou há dez dias pirulitando pela Argentina. passei, antes, uma semana em Montevideo, Uruguay, América do Sul. acho que Monte é a cidade que mais me impressionou de primeira vista, desde a chegada ao relindo aeropuerto Carrasco, passando pelos bares [jesus, o que é aquele Hemingway? existe lugar melhor para se embebedar? desconheço até o momento], praias e gente bonita. meu grande amigo Nikko e eu saíamos às 22h e voltávamos depois do amanhecer. houve um dia em que passamos, sem brincadeira, por mais de sete bares! claro que nem meu nome eu sabia mais, quanto menos o nome de onde estávamos...

depois, veio Colónia, que é uma cidadezim meio Paraty que fica no lado uruguaio da coisa, separada de Buenos Aires apenas pelo Rio de la Plata. de lá se pode ver os prédios altos de B'Aires. é charmosa, encantadora, um pouco misteriosa e velha. mas só volto lá casado.

quando saí do navio [tá  bom, era um ferry boat], senti una buena cosa, de buenos aires por estar de volta a... er... Buenos Aires. desde que cheguei, só parei por conta da chuva. às vezes, meu querido amigo carioca Phelipe Esteves me acompanha, às vezes vou de Don Quijote.

terminei o quarto livro hoje numa praça da Universidad de Buenos Aires. tenho lido muito. mas isto é história para depois. indico outro dia. só um, vai: Cordilheira, do Daniel Galera, é um dos cinco livros mais deliciosos que já li até hoje! por favor, leia!

tem muita coisa que eu queria contar, mas não posso. e não dá tempo. e me faltam as palavras. o importante é que mergulhei e não quero mais emergir. esta primeira parte linda da viagem termina daqui uma semana. volto para o Brésil e, depois, ¿qué sé yo?.

deixo aqui embaixo, mas com qualidade lá do alto, os vídeos da Josi Dias e da Flavia Monteiro. ambas moram aqui e cantam divinamente. conheci domingo numa livraria, acho que é Dain Usina Cultural. e sábado tem mais. só música boa.



Quinta-feira, Janeiro 19

um corpo na sala vendo televisão


minha mãe é a maior fã de Agatha Christie que eu conheço. tem uma pequena e honesta biblioteca só com livros da Rainha do Crime. e eu, que não dispenso um bom suspense, só li Um corpo da biblioteca e achei fantástico. nesta semana que passei na fazenda dos meus pais, porém, aproveitei para colocar livros, filmes e álbuns em dia. além do acervinho que levei, me diverti horrores com as duas temporadas de um seriado inglês aqui chamado de Agatha Christie Coleção Poirot, que eu havia regalado para Dona Clarice havia tempos – ela já viu ene vezes e ficava se coçando quando começava um novo episódio dizendo “você vai gostar muito deste!”... e eu amava a todos!

para quem não está familiarizado com os personagens da inglesa mais inteligente que já existiu [sorry, Spice Girls], Hercule Poirot [pode ser pronunciado como “érquile poarrô” ou como você quiser] é o detetive belga que aparece em quase todos seus livros e peças. na definição de seu sócio Capitão Hastings – outro personagem frequente – Poirot é um “homenzinho interessante! Altura, 1,63m, cabeça em formato de ovo, um pouco espichada para um lado, olhos que tinham um estranho brilho verde quando estava excitado, um bigodinho militar impecável, um ar de imensa dignidade! A aparência era impecável, puxando para o dândi” [esta descrição está no início do Assassinato no campo de golfe, que tirei da estante de mi madrezita].

no seriado, como nos livros de Agatha – sorte ter nascido homem, senão eu certamente seria Agatha Fonseca –, são obrigatórios o humor, o bom chá inglês e partidas de bridge. e um final arrebatador, claro.

além de ver este seriado e ler como um condenado à forca que tem alguns dias para devorar todos os livros já escritos e imaginados, aproveitei para fazer algumas fotos. a julgar pelo resultado de algumas imagens, o ano começou bem.

é, até que ficou munitenha...

restindo comecim duano



mais um post da série “em um único parágrafo, ele disse tudo o que caberia em um texto grande”

não há como passar uma semana na casa dos seus pais na fazenda de forma ilesa. e menos obesa. a melhor parte, claro, é ter o conforto da presença do pai e da mãe e blá-blá-blá. mas há bônus como contar o número de vezes que seu pai vai ao banheiro por noite [o mínimo é três, acredita?], perceber que sua mãe não é mais sonâmbula [era mais assustador do que imaginar o Papai Noel entrando pela janela – não tínhamos chaminé na sala porque 1) erámos pobres, 2) morávamos no Brasil e 3) usamos o tijolo da chaminé para fazer o berço da minha irmã], ouvir histórias que te fazem achar que o Gabriel García-Márquez plagiou sua família [“sabia que sua falecida tia foi atacada por um lobisomem? graças a Deus seu tio casou com ela depois disso”], ficar escrevendo até tarde no computador e também no caderno [nossa, peraí, meu pai acabou de levantar para o segundo deságue da noite], ficar vendo o seriado baseado nos livros da Agatha Christie e ter que ouvir várias vezes “não vai riscar, hein, menino!” mesmo-tendo-sido-você-quem-presenteou-os-dvds, ser chamado de menino, fuçar no armário e encontrar a Barsa inteirinha lá ainda [pode isso?!], ouvir seu pai tocar moda de viola antes da janta, falar [e escrever] “janta” ao invés de “jantar”, falar [e escrever, já falei] “pousar”, “alpendre”, “quera” e “bitela”, tomar banho só em dias com números primos e não com “inúmeros primos” [oi?!], nadar pelado na represa [oi?!], correr do Nemo [de roupa, claro], ficar embaixo da seringueira esperando o macaco ou o tucano aparecerem [“se você fizer uma cruz com o dedão esquerdo em um formigueiro seco, eles aparecem”], ficar vendo fotos da sua infância [eu até que era munitenho, certeza que ia ser adotado se tivesse ficado órfão], comer bolo de fubá, bolo de milho, bolo de chocolate, bolo sem sabor definido, ficar ouvindo aquele disco [em forma de cd] Ella canta Tom em que ela*... er... canta Tom e ficar se sentindo, tipo, móito cult, pegar lixia direto no pé de... er... lixia. enfim, não cabe tudo aqui que a tinta da caneta começou a acabar.

nossa, que preguiça de dar o Enter [no texto], e o Esc [daqui]. como diz minha amiga Marina Mendonça, acho que vou continuar aqui este restim de ano.

*Ella Fitzgerald, deixa quieto. volta lá.

em casa de ferreiro, o tetro é de vidro


na dramaturgia mundial, cabe ao personagem do escritor as maiores crises de identidade. por quê? embora seja coerente e verossímil pelo fato de o escritor externar suas angústias com certa rotina, a crise não é uma situação exclusiva ao escritor. aliás, cabe aquela velha pergunta “o escritor é o que escreve ou o que publica?”.

em filmes, livros e peças, este personagem sempre está envolvido em uma profundidade que só não é alcançada pelos autores de autoajuda, como o pai de família do Pequena miss sunshine. em geral, crises no casamento, existenciais, financeiras e hormonais aparecem com frequência e exemplos não faltam no cinema [1408, Reparação, Peixe grande, Sideways], nos livros [Os suicidas, As horas] e no teatro [dá para citar, ainda que forçado, O libertino, espetáculo adaptado aqui no Brasil pelo Jô Soares e que achei fantástico].

estas perguntas todas foram motivadas pelo filme Tetro, que acabei de ver. é daquele cineastazinha estadunidense Francis Ford Coppola de filminhos como Apocalipse now e O poderoso chefão [está bom para você?]. é um dos filmes mais impactantes que vi, tudo é bom ou ótimo na história e na forma como a coisa toda foi filmada.

não contém spoiler: começa com o personagem do irmão mais novo chegando à Buenos Aires em roupa de marinheiro para rever o irmão Angelo, que saiu de casa nos Estados Unidos há décadas por dificuldades de relacionamento com o pai, um famoso maestro que tem problemas existenciais com o irmão – também maestro. Tetro, novo nome de Angie, é um escritor que nunca publicou o livro e, para usar algumas de suas palavras, se divorciou da família.

o mais novo e o mais velho [nossa, escrito assim até parece Vidas secas] convivem por alguns dias e no meio deles está Miranda, uma argentina lindíssima [calma, não se trata de um triângulo amoroso, pelo menos não do jeito Eros], e outros personagens malucos, desajustados e presunçosos.

o elenco é bom, com Rodrigo de La Serna [você conhece, lembra dele como o amigo médico do Che em Diários de Motocicleta?] e Carmen Maura [difícil citar algum filme para quem fez tantos ótimos com o Almodóvar, melhor citar Mulheres à beira de um ataque de nervos e, do Alex de La Iglesia, A comunidade – uma das minhas comédias preferidas ever].

se prepare, pois o filme, embora recente, é preto em branco, as cores aparecem apenas em alguns detalhes de cena – como o vestido de uma bailarina de tango – e nos flashbacks da história, que não são poucos.

a história é uma releitura bem feita de Esaú e Jacó misturada com Édipo rei e Hamlet. e Buenos Aires, linda e decadente, é um personagem à parte que emerge aqui e ali para dar o tom tangueiro ao filme.

uma obra-prima irmã de Um lugar qualquer, filme espetacular da Sofia Coppola [sim, filha do Francis] que mostra a crise de um ator lindíssimo e famosíssimo que mora em um hotel, vive em festas, mas que sente falta de algo. ele tem uma filha, um amigo de infância [ou é um irmão?], e uma dupla de loiras que dança no pole para ele dormir. e por aí vai. outro filmão.

Tetro
Francis Ford Coppola [2009]
achei: fodão . foda . fodinha . nhé

Um lugar qualquer
Sofia Coppola [2010]
achei: fodão . foda . fodinha . nhé